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Leão XIV: a tradição da Igreja não é museu, é caminho vivo de evangelização
Na Audiência Geral desta quarta-feira, 27 de maio, o Papa refletiu sobre a reforma da liturgia no Concílio Vaticano II e afirmou que a verdadeira renovação nasce da fidelidade, da comunhão e da participação no mistério de Cristo. Ao final, fez novo apelo pela paz na Ucrânia.
Por Murilo Galhardo
Publicado em 27/05/2026 11:24 • Atualizado 27/05/2026 11:43
Igreja
Papa Leão | Vatican News

Na Audiência Geral desta quarta-feira, 27 de maio, realizada na Praça de São Pedro, o Papa Leão XIV deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre os documentos do Concílio Vaticano II e aprofundou a reflexão sobre a Constituição Sacrosanctum Concilium, dedicada à sagrada liturgia. O tema escolhido foi a reforma da liturgia, compreendida a partir de duas palavras que atravessam a vida da Igreja: tradição e desenvolvimento.

A catequese apresentou uma visão espiritual e pastoral da liturgia. Para o Papa, a Igreja não é uma realidade parada no tempo, mas um organismo vivo, chamado a conservar com fidelidade o núcleo da fé e, ao mesmo tempo, responder às necessidades de cada época. A liturgia, nesse caminho, não aparece como um simples conjunto de ritos, normas ou fórmulas. Ela é o lugar onde a Igreja celebra o mistério de Cristo, alimenta a fé dos fiéis e encontra força para continuar sua missão no mundo.

Leão XIV recordou a Encíclica Mediator Dei, de Pio XII, ao afirmar que a Igreja, também na liturgia, “cresce e desenvolve-se, adaptando-se e conformando-se às circunstâncias e às exigências que se verificam ao longo do tempo”. A partir dessa afirmação, o Papa mostrou que a renovação litúrgica não nasceu de uma ruptura, mas de um caminho de continuidade com a tradição viva da Igreja.

“A Igreja é um organismo vivo e, por isso, também no que diz respeito à sagrada liturgia, confirmando a integridade do seu ensinamento, cresce e desenvolve-se.”

Segundo o Pontífice, o Concílio Vaticano II reconheceu a necessidade de favorecer a vida cristã dos fiéis, adaptar aquilo que podia ser renovado e fortalecer tudo o que ajudasse a Igreja a anunciar Cristo ao mundo. A reforma litúrgica, portanto, não teve como objetivo apagar a história, mas permitir que os fiéis participassem com mais profundidade dos dons da graça presentes na celebração.

Nesse sentido, Leão XIV retomou uma das expressões centrais da Sacrosanctum Concilium:

“Conservar a sã tradição e abrir o caminho a um progresso legítimo.”

Essa frase se torna uma chave para compreender toda a catequese. Para o Papa, tradição e progresso não são inimigos. A verdadeira tradição não aprisiona a Igreja no passado, mas a mantém ligada à fonte de sua fé. O progresso legítimo, por sua vez, não significa improvisação ou abandono do essencial, mas desenvolvimento fiel daquilo que a Igreja recebeu de Cristo e transmitiu ao longo dos séculos.


Ao citar Bento XVI, Leão XIV destacou que muitas vezes tradição e progresso são colocados em oposição de maneira inadequada. Na realidade, explicou o Papa, os dois conceitos se integram. A tradição, quando é viva, carrega em si uma força de crescimento, como um rio que tem sua nascente e continua correndo em direção à foz.

A liturgia, afirmou o Papa, sempre acompanhou a história da Igreja. Ao longo dos séculos, ela se encarnou nas culturas, ajudou a formar comunidades, educou a fé do povo cristão e se tornou um verdadeiro caminho de evangelização. Não se trata apenas de celebrar bem, mas de permitir que cada gesto, cada palavra, cada silêncio e cada rito conduzam os fiéis ao mistério pascal de Cristo.

“A liturgia foi, ao longo dos séculos, e continua a ser hoje um motor de evangelização.”

Essa afirmação dá à catequese um forte sentido missionário. A liturgia não fecha a Igreja em si mesma. Ao contrário, quando é vivida com profundidade, beleza e fidelidade, ela envia os cristãos ao mundo com um coração renovado. A celebração se torna escola de comunhão, fonte de esperança e alimento para a missão.

Leão XIV também fez uma importante distinção apresentada pelo Concílio: na liturgia existe uma parte imutável, por ser de instituição divina, e existem partes suscetíveis de modificação, que podem variar ao longo do tempo quando deixam de corresponder plenamente à natureza da própria liturgia ou se tornam menos apropriadas para a participação dos fiéis.

O Papa explicou que essas mudanças sempre aconteceram na história da Igreja, mas devem ser realizadas com responsabilidade, discernimento e comunhão. Reformar a liturgia não é agir por gosto pessoal. Também não é transformar a celebração em espaço de criatividade individual. Toda mudança precisa nascer de uma autêntica necessidade da Igreja e ser precedida por investigação teológica, histórica e pastoral.

“Qualquer reforma deve ser sempre precedida de uma acurada investigação teológica, histórica e pastoral.”

Com essa orientação, Leão XIV advertiu contra atitudes que podem desorientar os fiéis. A liturgia pertence à Igreja, não a iniciativas isoladas. Por isso, ninguém deve acrescentar, retirar ou modificar por conta própria aquilo que diz respeito à celebração dos mistérios divinos. A fidelidade litúrgica, nesse sentido, não é rigidez. É sinal de humildade diante de Deus e de respeito pela comunhão eclesial.

O Papa dirigiu uma exortação especial aos sacerdotes e a todos os que preparam as celebrações. Ele pediu respeito aos textos e às normas litúrgicas, não como formalismo vazio, mas como expressão de uma atitude interior de confiança em Deus. Celebrar bem exige coração disponível, humildade diante do mistério e fidelidade sincera à Igreja.

A catequese também tem uma força espiritual para o tempo presente. Em uma época marcada pela pressa, pelo individualismo e pela fragmentação, Leão XIV recorda que a liturgia ensina a Igreja a permanecer unida. Ela educa o olhar, forma a sensibilidade da fé e nos coloca diante de algo maior do que nós mesmos. Na liturgia, a comunidade não se reúne para assistir a um ato religioso, mas para entrar no mistério de Cristo, que continua salvando, curando e enviando o seu povo.

Na saudação aos peregrinos de língua portuguesa, o Papa convidou os fiéis a permanecerem unidos a Maria, Mãe da Igreja, perseverantes na oração e comprometidos em transmitir ao mundo a esperança e a consolação do Evangelho.

“Unidos a Maria, Mãe da Igreja, mantenhamo-nos perseverantes e unidos na oração, e transmitamos a todos a esperança e a consolação do Evangelho.”

Ao final da Audiência Geral, Leão XIV fez um forte apelo pela paz na Ucrânia. O Papa manifestou preocupação com a intensificação da guerra e expressou proximidade às vítimas dos recentes ataques, inclusive contra civis. Com palavras firmes, lembrou que a guerra nunca é solução verdadeira para os conflitos humanos.

“A guerra não resolve os problemas, mas agrava-os; não constrói segurança, mas multiplica o sofrimento e o ódio.”

O Pontífice afirmou ainda que, onde caem mísseis e drones, também caem esperanças, são destruídas casas e lugares de oração, e vidas inocentes são ceifadas. Em seguida, confiou todos os povos feridos pela guerra à proteção da Virgem Maria, Rainha da Paz.

A Audiência desta quarta-feira deixa uma mensagem clara para a Igreja de hoje: renovar não é romper, conservar não é congelar. A verdadeira tradição é viva, porque nasce do Evangelho e conduz sempre de volta a Cristo. A liturgia, quando celebrada com fidelidade e profundidade, torna-se lugar de encontro com Deus, escola de comunhão e força missionária para um mundo que precisa reaprender a esperar.

No coração da catequese de Leão XIV, permanece uma imagem forte: a Igreja é chamada a beber da fonte antiga da fé para seguir caminhando no presente. A liturgia é esse rio de graça que atravessa os séculos, leva o povo de Deus ao mistério de Cristo e transforma a oração da Igreja em anúncio, consolo e missão.

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