O Encontro da Província dos Jesuítas do Brasil chegou ao fim na última sexta-feira (24), mas a experiência vivida em Itaici continua reverberando na missão de quem participou. Depois das celebrações, das conversações espirituais e dos momentos de escuta, permanece uma pergunta que não se encerra com a programação: “Onde está o seu coração?”
Entre os dias 21 e 24 de julho, jesuítas, leigos e leigas reuniram-se para rezar, avaliar a caminhada e discernir os rumos da missão da Companhia de Jesus no Brasil. Mais do que discutir projetos e estruturas, o encontro convidou cada participante a olhar para aquilo que sustenta suas escolhas, seus serviços e sua entrega.
Nas entrevistas concedidas à Rádio Amar e Servir, os padres Sílvio Marques Souza Santos, SJ, e Laércio de Lima, SJ, partilharam algumas das experiências que marcaram esses dias. As falas mostram que o encontro terminou, mas o discernimento continua no cotidiano das obras, comunidades e frentes apostólicas espalhadas pelo país.
Voltar ao que é essencial
Diretor do Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), em Manaus (AM), o Pe. Sílvio Marques, SJ, definiu o encontro como uma oportunidade de mergulhar no que existe de mais profundo na vocação cristã e jesuíta: o seguimento de Jesus.
Segundo ele, a pergunta proposta pelo tema conduziu os participantes a uma experiência de proximidade com o coração misericordioso, paciente e bondoso de Cristo. Um coração que chama pessoas marcadas por fragilidades, mas dispostas a colocar a própria vida a serviço da missão.
“Foram três dias de uma experiência muito bonita, de mergulharmos naquilo que é mais próprio nosso, que é o seguimento de Nosso Senhor, a partir de uma experiência desse coração misericordioso, paciente e bondoso.”
Pe. Sílvio também ressaltou que a missão da Companhia de Jesus não é realizada apenas pelos jesuítas. Leigos e leigas participam ativamente dessa caminhada e assumem responsabilidades fundamentais nas diferentes obras e frentes apostólicas da Província.
Essa presença compartilhada ajuda a compreender que a missão não pertence a uma única pessoa ou grupo. Ela é construída por muitas mãos, histórias e vocações que, mesmo diferentes, procuram responder ao mesmo chamado.
“Estamos cheios de colaboradores leigos e leigas, mulheres também, que estão nessa missão conosco, para cada vez mais tomarmos consciência do nosso seguimento e da fidelidade à missão para a qual Ele nos convida.”
Instrumentos que indicam um caminho
Ao refletir sobre a continuidade da missão depois do encontro, Pe. Sílvio mencionou o Plano Apostólico e o Planejamento Estratégico da Província. Para ele, esses documentos são instrumentos importantes porque ajudam a indicar o caminho que a Companhia de Jesus deseja percorrer no Brasil.
Mais do que textos institucionais, eles devem orientar decisões, prioridades e ações concretas. Apropriar-se desses instrumentos significa reconhecer que a missão exige espiritualidade, discernimento e organização para responder de maneira responsável aos desafios da realidade.
“São marcos importantes que dizem: o caminho da Companhia de Jesus no Brasil é este. Somos convidados a nos apropriarmos cada vez mais desses instrumentos, porque ali está o nosso modo de proceder.”
Esse caminho passa pelo serviço à Igreja e aos pobres, pela defesa da dignidade humana, pelo cuidado da Casa Comum, pela oferta dos Exercícios Espirituais e pelo acompanhamento das juventudes em seus projetos de vida.
São frentes diferentes, mas atravessadas por uma mesma disposição: encontrar Deus na realidade e servir onde a vida se encontra mais ameaçada.
“A missão que temos é servir à Igreja, aos pobres e à Casa Comum, oferecer Deus através dos Exercícios Espirituais e acompanhar os jovens em seu projeto de vida. Essa é a nossa missão atual na Companhia de Jesus no Brasil.”
Jovens que perguntam pelo sentido da vocação
Delegado para a Formação da Província dos Jesuítas do Brasil, o Pe. Laércio de Lima, SJ, destacou um dos momentos mais significativos do encontro: a escuta dos jovens jesuítas e de suas experiências vocacionais.
Durante a programação, o Ir. Gabriel, natural de Fortaleza e atualmente em missão em Curitiba, e Luciano Coutinho, paulista que vive em Belém, partilharam suas histórias. Os dois ingressaram na Companhia de Jesus no mesmo período e viveram juntos importantes etapas formativas, entre elas experiências de peregrinação.
Diante de jesuítas de diferentes gerações, eles falaram sobre o chamado vocacional, os sonhos que carregam e aquilo que os ajuda a perseverar na Companhia de Jesus.
“Eles puderam narrar um pouco da sua história vocacional e daquilo que sustenta a vocação deles na Companhia. Foi um testemunho pessoal a partir do que faz com que eles permaneçam jesuítas.”
A partilha não ficou restrita aos dois jovens. O momento foi aberto para perguntas, ressonâncias e testemunhos de outros participantes. Jesuítas mais novos e mais experientes puderam falar sobre suas próprias escolhas, dificuldades e esperanças.
Alguns deles carregam uma longa história de dedicação à Companhia, tendo participado da construção de Itaici e da consolidação de obras como as Edições Loyola. Outros estão apenas começando a descobrir como poderão servir diante das novas necessidades da Igreja e da sociedade.
Para Pe. Laércio, esse encontro entre gerações mostrou que a missão antiga e a missão atual não são histórias separadas. Elas fazem parte de uma mesma caminhada, ainda que cada geração encontre uma maneira própria de expressar seus desejos e responder aos desafios de seu tempo.
“É bonito ouvir isso e ver como a nossa missão antiga e atual está tão conectada. A diferença é que, no coração dos jovens, isso aparece de modo distinto. O tempo mudou, mas o humano a gente vê que é o mesmo.”
“A quem eu estou servindo?”
Entre os sonhos e as inquietações dos jovens, Pe. Laércio identificou uma pergunta que ultrapassa as funções e alcança o sentido mais profundo da vocação.
Não se trata apenas de perguntar “para que eu sirvo?”, como se a vida pudesse ser resumida às tarefas realizadas ou aos cargos ocupados. A questão fundamental é descobrir a quem a vida está sendo entregue.
“É uma vontade muito grande de responder à pergunta: para quem eu sirvo? Não só ‘para quê?’, mas ‘para quem?’. A quem estou servindo? Qual é o significado da minha existência e da minha vocação?”
Essa pergunta também ajuda a compreender o próprio tema do Encontro da Província. Perguntar onde está o coração significa reconhecer quem ocupa o centro da vida e a partir de qual relação são tomadas as decisões.
Para os jesuítas, a resposta encontra seu fundamento em Jesus. É a relação com Ele que dá sentido à vocação e impede que a missão se torne apenas uma sequência de tarefas, projetos e compromissos institucionais.
Um coração que une passado e presente
Ao aprofundar o tema do encontro, Pe. Laércio recordou a história de São Roque González de Santa Cruz e seus companheiros mártires, no contexto da memória dos 400 anos da evangelização e da presença missionária jesuítico-guarani na região Sul.
A imagem do coração de São Roque González estabelece uma ligação espiritual entre a missão vivida há quatro séculos e os desafios enfrentados pela Companhia de Jesus atualmente. O tempo mudou, as realidades são outras, mas permanece o chamado para amar e servir com coragem e fidelidade.
“Trazer a imagem do coração e perguntar ‘onde está o seu coração?’ fala do que aconteceu há 400 anos, mas fala de agora também.”
A memória dos primeiros missionários não aparece como uma tentativa de repetir o passado. Ela se transforma em inspiração para discernir o presente e encontrar novas formas de testemunhar o Evangelho.
O coração, nesse sentido, representa aquilo que atravessa as gerações: o desejo de amar Jesus e caminhar ao lado das pessoas, especialmente daquelas que carregam as maiores dores e esperanças da humanidade.
A consciência de não caminhar sozinho
Entre as experiências que Pe. Laércio leva do encontro está a certeza de que a missão não é realizada de maneira solitária. Cada jesuíta faz parte de um corpo apostólico formado por companheiros que vivem realidades distintas, mas compartilham a mesma vocação.
Esse corpo possui um coração que pulsa, cria, ousa e procura responder aos desafios de cada tempo. É também um corpo que sofre, porque não permanece indiferente às feridas da humanidade.
“O que levo para a minha vida é perceber que não estou só. É esse sentimento de ser jesuíta em um corpo que tem um coração pulsante, que é criativo, que é ousado e que sofre e sente as dores da humanidade.”
A pertença a esse corpo não elimina as diferenças. Ao contrário, permite que experiências, idades, culturas e modos de servir se encontrem em torno de uma missão comum.
Foi isso que se tornou visível durante os dias em Itaici: jovens ouvindo os mais experientes, jesuítas escutando leigos e leigas, obras compartilhando desafios e pessoas de diferentes regiões reconhecendo-se como parte de uma mesma caminhada.
Perto do coração de Cristo
Projetos apostólicos, planejamentos e estruturas são necessários para organizar a missão. Entretanto, um dos discernimentos mais fortes deixados pelo encontro é que nenhuma estrutura consegue substituir a experiência pessoal e comunitária com Jesus.
Pe. Laércio resumiu esse desejo em um pedido de graça: que o coração daqueles que servem na Companhia de Jesus não se distancie do coração de Cristo.
“O que pedimos muito nesses dias foi a graça de que o nosso coração não se distancie do coração de Cristo. Senão, são projetos muito distintos.”
Quando a missão perde essa proximidade, existe o risco de que os projetos passem a servir a si mesmos. Quando permanece unida a Cristo, porém, a organização torna-se serviço, o planejamento transforma-se em instrumento e as diferenças são colocadas a favor de um bem maior.
Por isso, o horizonte apresentado por Pe. Laércio não é apenas realizar mais atividades, mas permitir que toda a vida seja progressivamente configurada à vida de Jesus.
“Foi bonito ver que temos uma linha, um caminho que nos sustenta, que é sermos cada vez mais parecidos com Jesus Cristo. Companheiros de Jesus, amigos no Senhor.”
O encontro acabou, a missão continua
Ao final dos quatro dias, cada participante deixou Itaici e retornou à sua realidade. Alguns voltaram para universidades e centros de formação. Outros seguiram para comunidades, paróquias, obras sociais, centros de espiritualidade, iniciativas socioambientais e espaços de acompanhamento das juventudes.
A pergunta levada por todos, entretanto, permanece a mesma: onde está o nosso coração?
A resposta não será encontrada apenas nos documentos produzidos ou nas palavras pronunciadas durante o encontro. Ela aparecerá no modo como cada pessoa reassume sua missão, estabelece relações, toma decisões e se coloca diante das dores do mundo.
Entre a memória dos mártires, os sonhos dos jovens, a presença dos colaboradores e os desafios atuais da Companhia de Jesus, o Encontro da Província deixou uma certeza: a missão só encontra sua verdadeira direção quando o coração permanece próximo do coração de Cristo.
O encontro terminou. As reverberações continuam. E a pergunta agora acompanha cada passo do caminho.