Em um cenário marcado pela polarização, pelo enfraquecimento do diálogo e pela crescente desconfiança nas instituições, uma iniciativa da Companhia de Jesus na Argentina mostra que ainda é possível compreender a política como instrumento de serviço, transformação social e construção do bem comum.
Criada em 2015 pela Fundação CIAS, Centro de Pesquisa e Ação Social, a Escola de Liderança Política nasceu com o objetivo de formar lideranças capazes de contribuir para o desenvolvimento econômico e humano da Argentina, especialmente em favor das populações mais vulneráveis.
Idealizado pelos jesuítas argentinos, o projeto combina formação acadêmica, preparação técnica e reflexão ética. A proposta é oferecer aos participantes ferramentas para compreender a realidade social, planejar políticas públicas e exercer a liderança com responsabilidade.
Mais do que transmitir conhecimentos, a escola procura recuperar uma dimensão essencial da vida pública: a política como compromisso com a dignidade humana.
Diferentes ideias em uma mesma sala
Uma das principais características da iniciativa é a diversidade política entre os participantes. A cada ano, 32 jovens são selecionados entre centenas de candidatos. O processo considera a trajetória acadêmica, a experiência política, a capacidade de liderança e o potencial de crescimento de cada pessoa.
Os alunos pertencem a diferentes partidos e correntes de pensamento. Essa pluralidade faz parte da proposta formativa, que estimula o respeito, a tolerância e a capacidade de dialogar com quem pensa de maneira diferente.
Em vez de eliminar as divergências, a escola ensina seus participantes a conviver com elas e a procurar caminhos comuns diante dos grandes desafios sociais.
A formação inclui estudos de caso, debates, simulações de cenários, oficinas práticas e encontros com pesquisadores, gestores públicos, diplomatas, sindicalistas e representantes da sociedade civil. Os estudantes também participam de viagens e intercâmbios para conhecer outras experiências de administração e liderança.
Delegações da instituição já estiveram no Brasil, no Chile, no México e nos Estados Unidos.
Mais de 200 lideranças formadas
Ao longo de sua trajetória, a iniciativa já formou mais de 200 jovens. Entre os antigos alunos estão ministros, parlamentares, prefeitos, vereadores, dirigentes partidários, gestores públicos e integrantes de organizações sociais.
Atualmente, o CIAS é reconhecido formalmente como instituto universitário e mantém programas de pós-graduação voltados à formação política e à pesquisa social.
Apesar das diferentes posições ideológicas, os participantes passam a integrar uma comunidade comprometida com o desenvolvimento econômico e social da Argentina.
A experiência demonstra que a democracia não depende apenas da existência de eleições. Ela também precisa de pessoas preparadas, honestas e capazes de colocar o interesse coletivo acima das disputas individuais ou partidárias.
A política à luz do Evangelho
Para a Companhia de Jesus, formar lideranças políticas não significa apoiar determinado partido ou corrente ideológica. Significa colaborar para que homens e mulheres exerçam suas responsabilidades inspirados pela justiça, pelo respeito à dignidade humana e pela atenção aos mais pobres.
Os valores do Evangelho tornam-se, assim, referências para uma atuação pública orientada pelo serviço e pelo cuidado com o outro.
Em uma sociedade na qual o adversário frequentemente é tratado como inimigo, a experiência argentina propõe um caminho diferente. Um caminho fundamentado na escuta, no discernimento, na preparação e no reconhecimento da diversidade.
A iniciativa também confronta a chamada antipolítica, caracterizada pela ideia de que todas as pessoas envolvidas na vida pública são desonestas ou incapazes. Para os responsáveis pelo projeto, ainda vale a pena investir na formação de políticos profissionais, íntegros e comprometidos com os valores humanos e democráticos.
Reconstruir a esperança na vida pública
A Escola de Liderança Política não apresenta respostas prontas para todos os problemas da democracia. Sua contribuição está em demonstrar que a transformação da política também passa pela formação das pessoas que assumem responsabilidades públicas.
Em tempos de discursos agressivos e divisões profundas, preparar lideranças capazes de dialogar pode ser um gesto concreto de esperança.
A experiência promovida pelos jesuítas argentinos recorda que a política, quando vivida como serviço, pode voltar a ser um espaço de encontro, participação e cuidado com a vida.
Mais do que ocupar cargos, liderar significa assumir responsabilidades. E mais do que vencer uma disputa, construir a democracia exige aprender a caminhar com quem pensa diferente.
Com informações da Companhia de Jesus.