Após quatro dias de oração, escuta, convivência e discernimento, o Encontro da Província do Brasil 2026 chegou ao fim nesta sexta-feira, 24 de julho, no Mosteiro de Itaici, em Indaiatuba (SP). Mais do que encerrar uma programação, a conclusão marcou um novo envio: jesuítas e colaboradores retornam às suas comunidades e obras apostólicas convidados a transformar em gestos concretos aquilo que foi rezado, partilhado e discernido durante o encontro.
Realizado entre os dias 21 e 24 de julho, o evento teve como tema “Onde está seu coração?”. A pergunta atravessou os diferentes momentos da programação e conduziu os participantes a um exame profundo sobre os afetos, as escolhas e a maneira como cada pessoa se coloca a serviço da missão. Na espiritualidade inaciana, olhar para o coração significa reconhecer aquilo que verdadeiramente orienta as decisões e perceber para onde convergem os desejos, as energias e a própria vida.
Ao longo dos dias, a programação reuniu momentos de oração, celebrações, apresentações, escuta da realidade da Província e avaliação de seu caminho apostólico. A diversidade das presenças evidenciou a amplitude da Companhia de Jesus: homens de diferentes gerações, nacionalidades, regiões e experiências missionárias, unidos pela mesma vocação e pela responsabilidade de responder aos desafios do tempo presente.
Um só corpo, muitos rostos
O encontro teve um significado especial para o Pe. Francys Silvestrini Adão, SJ, por ter sido o primeiro desde que assumiu a missão de provincial dos Jesuítas do Brasil, em fevereiro de 2026. Terceiro provincial desde a criação da Província do Brasil, em 2014, ele recebeu a responsabilidade de zelar pela unidade, acompanhar comunidades e obras e discernir os novos envios apostólicos da Companhia no país.
Ao avaliar os dias vividos em Itaici, Pe. Francys definiu a experiência como um momento de consolação. Segundo ele, a liberdade para compartilhar sonhos, angústias, percepções e esperanças permitiu que os participantes se reconhecessem como parte de uma realidade maior.
“Havia sintonia e um lugar seguro para dizer o que cada um está vendo, sentindo e pensando. Isso forma corpo. O grande sinal que desejo é essa consciência: somos um só corpo, animado pelo Senhor, caminhando com a Igreja a serviço de Deus neste mundo.”
A expressão “corpo apostólico” foi uma das chaves para compreender o encontro. Embora presentes em escolas, universidades, centros sociais, paróquias, casas de retiro, obras de espiritualidade, iniciativas socioambientais, projetos dedicados às juventudes e tantas outras frentes, jesuítas e colaboradores não realizam missões desconectadas. Cada presença integra um mesmo projeto apostólico, sustentado pelo desejo de servir à Igreja e à sociedade, sobretudo onde a dignidade humana e a esperança são mais ameaçadas.
Para cuidar, é preciso deixar-se cuidar
Na celebração que marcou a conclusão do encontro, Pe. Francys refletiu sobre a imagem do pastor. Em sua entrevista, ampliou essa compreensão ao recordar que nenhuma liderança consegue cuidar verdadeiramente dos outros se não aceita, também, ser acompanhada e cuidada.
“Ninguém pode ajudar a pastorear se não se deixa cuidar. Conversamos sobre como cuidar uns dos outros, deixar-se cuidar pelos outros e cuidar de si mesmo para poder cuidar.”
A afirmação revela uma dimensão essencial da liderança cristã: o pastor também precisa reconhecer-se como ovelha. Quem assume responsabilidades não deixa de necessitar de escuta, companhia, correção fraterna, descanso e apoio. Na Companhia de Jesus, essa consciência se traduz na vida comunitária, no acompanhamento espiritual, no trabalho conjunto e na presença cotidiana de leigos, leigas e colaboradores que compartilham a missão.
Pe. Francys convidou as lideranças das comunidades e obras a perceberem que o cuidado é uma relação de reciprocidade. Enquanto acompanham pessoas e processos, elas também são sustentadas pela generosidade do povo de Deus e pelas muitas presenças que constroem diariamente cada apostolado.
“Que as lideranças cuidem, mas saibam que também estão sendo cuidadas por cada presença que está ali”, afirmou.
Renovado ânimo para continuar
Ao dirigir uma mensagem aos participantes, Pe. Francys ressaltou que o principal fruto do encontro deve aparecer na continuidade da missão. Não se trata de iniciar tudo novamente, mas de retornar ao cotidiano com outra disposição interior, reconhecendo que nenhuma pessoa ou obra caminha isoladamente.
“Que continuem realizando o que já estão fazendo, mas agora com renovado ânimo, vigor e ardor, sabendo que não estão sozinhos e sozinhas. Fazem parte de um corpo mais amplo e, por isso, voltando mais fortes, sirvam ainda mais ao Reino, para a maior glória de Deus.”
A missão silenciosa de construir pontes
Se ao provincial cabe animar a unidade e a vitalidade apostólica da Companhia de Jesus no Brasil, existe ao seu lado uma missão fundamental, embora pouco conhecida fora da estrutura de governo da Ordem: a do sócio do provincial.
O Ir. Davidson Braga, SJ, explicou que, diferentemente do sentido empresarial habitualmente associado à palavra “sócio”, o termo designa aquele que trabalha diretamente com o provincial e o auxilia nas diferentes necessidades do governo da Província.
“O sócio, na verdade, é um ajudante. Poderíamos traduzir assim: é um ajudante geral para tudo. Ele tem a missão de auxiliar o provincial naquilo de que precisa.”
Esse serviço inclui o acompanhamento de documentos, processos, correspondências e demandas administrativas, além da comunicação entre o provincial, os jesuítas, as comunidades e as obras apostólicas. É uma missão que exige proximidade, confiança, discrição e grande capacidade de escuta.
Ir. Davidson resumiu sua responsabilidade por meio de duas imagens: a ponte e o bastão.
“O sócio é ponte, porque faz a ligação entre várias pessoas e o provincial. E é também bastão, aquele em quem o provincial pode apoiar-se para executar a sua missão.”
Além de sócio, Ir. Davidson exerce a função de admonitor. Presente na tradição e nas Constituições da Companhia de Jesus, o admonitor tem a responsabilidade de aconselhar o superior com liberdade e franqueza, ajudando-o a perceber aspectos que merecem maior atenção.
Trata-se de um serviço de cuidado com aquele que governa, recordando que, na espiritualidade inaciana, a autoridade não é vivida de maneira isolada, mas sustentada pela escuta, pelo discernimento e pela corresponsabilidade.
O reencontro com a família religiosa
Para o Ir. Davidson, a diversidade foi uma das marcas mais expressivas do encontro. Mais do que uma reunião institucional, Itaici tornou-se um espaço de reencontro entre irmãos que, embora espalhados por diferentes territórios e frentes apostólicas, compartilham a mesma vida e missão.
A presença de jesuítas brasileiros que vivem em outros países e de missionários estrangeiros que atuam no Brasil tornou ainda mais visível a universalidade da Companhia de Jesus.
“Eu experimento um coração aquecido ao encontrar a minha família religiosa. Os jesuítas são os meus irmãos. É com eles que divido a vida e a missão, e são eles que me ensinam a ser irmão jesuíta.”
A imagem apresentada pelo Ir. Davidson ajuda a compreender também o sentido do próprio Encontro da Província: aproximar pessoas que atuam em contextos diferentes, fortalecer os vínculos do corpo apostólico e oferecer apoio para que a missão possa avançar com maior unidade.
Afetos ordenados para o Reino
Ao falar sobre os frutos esperados após os dias vividos em Itaici, Ir. Davidson retomou o tema central do encontro. Para ele, o coração não deve ser compreendido apenas como o lugar dos sentimentos, mas como o espaço interior no qual amadurecem as escolhas, os caminhos e as decisões.
Essa compreensão está profundamente ligada à espiritualidade de Santo Inácio de Loyola. Nos Exercícios Espirituais, o discernimento ajuda a pessoa a reconhecer seus movimentos interiores e a ordenar os afetos, para que suas escolhas sejam feitas com maior liberdade e estejam voltadas ao serviço de Deus e do próximo.
“A minha expectativa é que voltemos para as nossas comunidades animados, com o coração ardendo por sermos servidores da missão.”
O coração aquecido, portanto, não representa apenas uma emoção experimentada durante o encontro. É uma disposição interior que precisa se converter em presença, disponibilidade, cuidado e serviço nos lugares concretos onde cada jesuíta e colaborador é chamado a atuar.
O encontro continua na missão
O encerramento não colocou um ponto-final na pergunta “Onde está seu coração?”. Ao contrário, levou essa questão para além de Itaici. Ela acompanhará cada participante no retorno à sua comunidade, ajudando a examinar se o trabalho cotidiano nasce de um coração livre, disponível e verdadeiramente comprometido com o Reino.
O Encontro da Província do Brasil terminou, mas aquilo que foi semeado durante esses dias começa agora a encontrar novos terrenos. Nas comunidades, nas obras apostólicas, nas relações e nos desafios concretos da missão, cada participante é chamado a manter vivo o coração aquecido pela convivência e pelo discernimento.
De Itaici para tantas regiões do Brasil, permanece a certeza de que ninguém serve sozinho. Há uma Companhia que caminha unida, uma Igreja construída pela participação e um povo que também cuida daqueles que se dispõem a cuidar.
O encontro termina como começou: com uma pergunta dirigida ao mais profundo da vida. Onde está seu coração?