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Um só corpo, muitas vocações: leigos e leigas fortalecem a missão no Encontro da Província
Em Itaici, colaboradores e colaboradoras de diferentes obras da Companhia de Jesus partilham experiências, aprofundam o carisma inaciano e renovam a esperança de caminhar em comunhão com os jesuítas
Por Murilo Galhardo
Publicado em 23/07/2026 19:52
Jesuítas
Encontro da Província 2026

Há encontros que reúnem pessoas. Outros, porém, ajudam cada participante a compreender que faz parte de algo maior. No Encontro da Província dos Jesuítas do Brasil 2026, realizado entre os dias 21 e 24 de julho, no Mosteiro de Itaici, em Indaiatuba (SP), aproximadamente 310 jesuítas, leigos, leigas e religiosas se reúnem para rezar, escutar, discernir e refletir sobre a missão da Companhia de Jesus no país. Com o tema “Onde está seu coração?”, o evento convida cada pessoa a reconhecer o lugar onde seus afetos, suas escolhas e sua vocação encontram o serviço ao Reino de Deus.

Entre conferências, celebrações, mesas-redondas e grupos de partilha, uma presença se destaca não apenas numericamente, mas pelo significado que carrega: a dos leigos e leigas que atuam diariamente nas obras apostólicas da Província. São gestores, educadores, agentes pastorais, profissionais da comunicação, da administração, da assistência social e de tantas outras áreas. Homens e mulheres que, a partir de suas competências profissionais, histórias de fé e experiências de vida, ajudam a tornar concreta a missão da Companhia de Jesus.

A participação dessas pessoas revela que a missão não pertence a um grupo isolado. Ela nasce da comunhão, cresce na diversidade e se realiza quando diferentes vocações se colocam a serviço do mesmo horizonte apostólico. O Encontro da Província torna-se, assim, espaço de reconhecimento, formação e fortalecimento de um corpo no qual cada pessoa possui uma contribuição insubstituível.

A esperança de descobrir que ninguém caminha sozinho

Para Vanessa Vasconcelos, gestora da Casa de Retiro São José, em Vera Cruz, na Bahia, participar pela primeira vez do encontro tem sido uma experiência de ampliação dos horizontes. A convivência com colaboradores de outras obras e com os jesuítas permite conhecer diferentes realidades e compreender com maior profundidade o trabalho desenvolvido pela Província.

“Está sendo uma experiência riquíssima. Temos a oportunidade de conhecer outros colegas de obras, leigos, leigas e jesuítas, ampliando o nosso conhecimento e a nossa consciência sobre o trabalho e sobre a importância do Plano Apostólico da Província”, afirma.

Vanessa destaca que o aprendizado não acontece somente durante as palestras e apresentações. Ele também nasce nos corredores, nas refeições, nas conversas informais e no encontro com pessoas que, apesar das distâncias geográficas e das diferentes áreas de atuação, compartilham o mesmo compromisso com a missão.

Ao pensar no que deseja levar para a realidade da Casa de Retiro São José, ela aponta para um sentimento que atravessa todo o encontro: a esperança. Não uma esperança abstrata ou distante, mas aquela que se fortalece quando uma pessoa percebe que não está sozinha.

“Precisamos seguir fortes, manter acesa a chama do nosso coração e compreender que não estamos sozinhos. Somos um corpo, como temos falado muito aqui. Quero levar esse fortalecimento da esperança, para continuarmos firmes e com muita fé na missão”, ressalta.

Sua fala traduz uma das experiências centrais vividas em Itaici. Ao encontrar rostos, histórias e projetos de diferentes regiões do Brasil, cada participante percebe que sua atuação local está conectada a uma missão muito mais ampla. O trabalho realizado em uma casa de retiros, em um centro de juventude, em uma instituição educacional ou em uma área administrativa participa de um mesmo movimento de serviço, reconciliação, justiça e cuidado.

Cuidar das pessoas também é viver o carisma

A dimensão da missão compartilhada também aparece no testemunho de Cristiane do Carmo, gestora de Recursos Humanos da Província dos Jesuítas do Brasil. Depois de nove anos de atuação, ela participa pela primeira vez do Encontro da Província e define a experiência como uma oportunidade de aprofundamento e aprendizado.

“Estou muito feliz. Cada vez que me aprofundo no conhecimento sobre os jesuítas e sobre a Província como um todo, percebo como isso é importante. Como leiga, também posso trazer um pouco da minha experiência na área de gestão de pessoas, que faz parte do meu cotidiano”, explica.

A presença de Cristiane evidencia que a espiritualidade inaciana não está restrita aos momentos de oração ou às atividades explicitamente pastorais. Ela também pode orientar as relações de trabalho, os processos administrativos, a escuta dos colaboradores, a tomada de decisões e o cuidado com as pessoas.

“Lidar com pessoas, cuidar da casa comum e fazer o discernimento diário são experiências que vão se somando. Tudo isso agrega à nossa caminhada e estou muito feliz por participar”, afirma.

Nesse sentido, o trabalho profissional deixa de ser compreendido apenas como execução de tarefas. Quando vivido à luz da missão, transforma-se em espaço de cuidado, serviço e responsabilidade. A gestão de pessoas, por exemplo, passa a reconhecer que por trás de cada função existe uma história, uma vocação, uma família, limites, potencialidades e sonhos.

Cristiane também deixa um convite para aqueles que poderão participar das próximas edições do encontro: chegar com disponibilidade interior. “Que aproveitem ao máximo. Quando outras pessoas forem convidadas, que venham com o coração e a mente abertos, porque há muito aprendizado e isso é muito importante para nós.”

“Eu faço parte”

Gerente do Centro MAGIS Anchietanum, em São Paulo (SP), Alessandra Custódio também participa pela primeira vez do Encontro da Província. Sua atuação está ligada especialmente à missão com as juventudes, em uma obra que promove experiências formativas, pastorais, vocacionais e de espiritualidade inaciana.

Para Alessandra, estar em Itaici representa uma graça e, ao mesmo tempo, uma confirmação de seu compromisso como leiga. A experiência de partilhar reflexões e inquietações ao lado dos jesuítas permite compreender que a missão não é algo externo à sua vida, mas parte de sua própria vocação batismal.

“Esse encontro me enriquece enquanto leiga, enquanto colaboradora e enquanto pessoa comprometida com a missão. Acabei de sair de um grupo de partilha no qual eu era a única mulher entre vários padres. Foi muito rico perceber o quanto nossas experiências podem dialogar”, relata.

Essa imagem, uma mulher leiga partilhando sua experiência em um grupo formado majoritariamente por jesuítas, expressa a riqueza e também os desafios de uma Igreja que deseja crescer em participação, escuta e sinodalidade. Não se trata apenas de conceder espaço, mas de reconhecer a autoridade que nasce da experiência, da competência, da fé e do compromisso de cada pessoa.

Alessandra afirma que o encontro a ajuda a compreender que sua atuação não pode ser reduzida a um emprego. “Vou entendendo cada vez mais o meu compromisso. Não apenas o meu trabalho, mas a minha missão enquanto batizada. A Igreja me oferece a possibilidade de participar, como leiga, de uma missão e de um carisma tão rico quanto o carisma inaciano.”

Ao recordar a experiência espiritual de Santo Inácio de Loyola, ela ressalta que a profundidade humana e espiritual encontrada pelo fundador da Companhia de Jesus não ficou limitada aos primeiros companheiros. Essa herança foi sendo compartilhada e hoje alcança inúmeras pessoas que, mesmo não sendo jesuítas, reconhecem na espiritualidade inaciana um caminho para encontrar Deus e servir ao próximo.

“Essa experiência foi dada aos padres, mas também é dada a mim, a você e a tantos outros. Participar de um encontro como este é poder dizer, de fato: eu faço parte”, afirma.

Embora reconheça que o encontro ainda esteja em andamento, Alessandra já identifica aquilo que deseja cultivar em seu retorno: a comunhão. “Estar aqui é experimentar uma comunhão muito grande, enquanto Igreja, enquanto Companhia e enquanto Rede Inaciana de Juventude. Acredito que, até o final da semana, essa comunhão, a participação e a sinodalidade crescerão ainda mais.”

Uma missão que nasce da diversidade

As experiências de Vanessa, Cristiane e Alessandra partem de lugares diferentes, mas convergem para uma mesma certeza: a Companhia de Jesus é chamada a viver sua missão como um corpo apostólico formado por diferentes vocações, responsabilidades e modos de servir.

A presença dos leigos e leigas não é secundária ou meramente operacional. Eles participam da reflexão, do discernimento, da gestão e da realização da missão. Levam para dentro das obras suas competências profissionais, sua experiência familiar, sua inserção na sociedade, sua sensibilidade e sua maneira própria de perceber os desafios do mundo.

Do mesmo modo, ao caminhar com os jesuítas, encontram acesso a uma tradição espiritual que os convida a buscar Deus em todas as coisas, discernir diante das escolhas e colocar a própria vida a serviço dos demais. Dessa relação nasce uma missão mais plural, consciente e próxima das realidades humanas.

Em Itaici, entre pessoas que chegam de diferentes regiões e contextos, o Encontro da Província recorda que ninguém sustenta sozinho uma obra apostólica. É preciso aprender a escutar, confiar, compartilhar responsabilidades e reconhecer os dons presentes em cada pessoa.

Ao perguntar “Onde está seu coração?”, o encontro provoca uma resposta que não se limita às palavras. O coração está onde a vida é colocada a serviço. Está no cuidado com quem chega a uma casa de retiros, na atenção dedicada aos colaboradores, no acompanhamento das juventudes, na administração responsável, na educação, na comunicação, na defesa da justiça e no acolhimento dos mais vulneráveis.

É nesse chão compartilhado que jesuítas, leigos e leigas descobrem que suas diferentes vocações não os separam. Ao contrário, tornam a missão mais completa. São muitas histórias, muitos rostos e diferentes maneiras de servir, mas todos pertencentes a um mesmo corpo, movidos pela mesma esperança e chamados a manter acesa a chama que os reúne.

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