Jesuítas e colaboradores reunidos no Encontro da Província do Brasil, em Itaici, participaram de uma reflexão conduzida por Dom João Justino de Medeiros Silva sobre as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. Em sua partilha, o arcebispo de Goiânia e primeiro vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil apresentou os principais horizontes do documento e destacou sua profunda ligação com o caminho sinodal vivido pela Igreja.
As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, referentes ao período de 2026 a 2032, foram aprovadas durante a 62ª Assembleia Geral da CNBB e publicadas como Documento 114. Fruto de um amplo processo de escuta, participação e discernimento, elas devem orientar a missão evangelizadora da Igreja Católica no Brasil nos próximos seis anos.
Ao conversar com a Rádio Amar e Servir, Dom João Justino explicou que uma das principais novidades das diretrizes é justamente a incorporação dos resultados do Sínodo sobre a Sinodalidade. Mais do que acrescentar novos projetos ou atividades pastorais, o documento propõe uma Igreja capaz de caminhar unida, fortalecer a participação de todo o Povo de Deus e renovar seus vínculos.
“As novas diretrizes estão em profunda sintonia com o resultado do Sínodo sobre a Sinodalidade. De fato, as diretrizes propõem uma Igreja sinodal.”
Segundo Dom João, o horizonte da missão da Igreja é articulado a partir das atitudes destacadas pelo processo sinodal: comunhão, participação e missão. As diretrizes também convidam a uma conversão das relações e dos vínculos, reconhecendo que a evangelização não acontece somente por meio de estruturas e atividades, mas também na maneira como as pessoas se encontram, escutam umas às outras, compartilham responsabilidades e discernem juntas.
Essa relação com a sinodalidade está no centro do novo documento. As diretrizes assumem a comunhão, a participação e a missão como atitudes fundamentais e propõem a conversão das relações, dos processos e dos vínculos dentro da Igreja.
Evangelizar em uma realidade em transformação
Durante a entrevista, Dom João também foi questionado sobre os desafios de evangelizar em um mundo cada vez mais digital e marcado por mudanças rápidas. Para ele, as diretrizes oferecem uma reflexão que parte da realidade sociocultural contemporânea, mas permanece sustentada pelo aprofundamento bíblico e teológico.
“As diretrizes trazem reflexões que consideram a realidade sociocultural que vivemos, mas também o aprofundamento bíblico e teológico, abrindo perspectivas para o agir pastoral.”
O arcebispo ressaltou que a capacidade de perceber os sinais dos tempos é indispensável para o discernimento pastoral. Antes de definir ações, métodos ou projetos, a Igreja precisa compreender como as pessoas vivem, quais mudanças atravessam a sociedade e quais são os sofrimentos, desafios e esperanças presentes em cada território.
Essa atenção às transformações do tempo presente também marcou a elaboração das diretrizes, que considerou questões como o avanço das novas tecnologias, a transformação digital, as mudanças no cenário religioso brasileiro e a crise climática.
Dom João lembrou ainda que um país com as dimensões e a diversidade do Brasil não permite respostas pastorais únicas ou distantes da realidade. Embora as diretrizes ofereçam um horizonte comum para toda a Igreja, sua recepção deverá considerar as particularidades de cada região.
A evangelização na Amazônia, por exemplo, apresenta desafios diferentes daqueles encontrados nas grandes cidades e regiões metropolitanas. Da mesma maneira, as periferias urbanas, as comunidades rurais, os povos tradicionais e os diferentes contextos culturais precisam ser escutados e acolhidos em suas particularidades.
“Pensando o Brasil em sua complexidade, as diretrizes também deverão ser recebidas de acordo com as realidades locais. É preciso pensar a região amazônica, as grandes cidades, as regiões metropolitanas e as periferias.”
Para Dom João, as diretrizes não oferecem respostas prontas para todas as situações, mas apresentam uma inspiração segura para que cada Igreja local possa discernir seus caminhos. A direção fundamental continua sendo a própria missão da Igreja: anunciar o Evangelho de Jesus Cristo de maneira compreensível, próxima e transformadora.
Espiritualidade inaciana a serviço da Igreja
Ao final da entrevista, Dom João Justino deixou uma mensagem de ânimo aos jesuítas e aos colaboradores que participam do Encontro da Província e atuam nos diferentes projetos e obras apostólicas da Companhia de Jesus no Brasil.
O arcebispo destacou a beleza de uma assembleia formada não somente por religiosos, mas também por leigos e leigas que compartilham a missão. Para ele, essa presença expressa a importância da colaboração e da corresponsabilidade na vida da Igreja.
“É muito bonito ver um encontro como esse, dos jesuítas e de seus colaboradores, dos diversos projetos da Companhia de Jesus no Brasil.”
Dom João manifestou o desejo de que a Província dos Jesuítas do Brasil continue cada vez mais sintonizada com o caminho da Igreja no país, oferecendo a riqueza de sua espiritualidade, de sua tradição de discernimento e de sua presença missionária.
“Desejo que eles continuem cada vez mais sintonizados com o projeto da Igreja no Brasil e oferecendo as riquezas da espiritualidade e da missão da Companhia, enriquecendo assim o nosso povo de Deus.”
A partilha realizada em Itaici reforçou que a recepção das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora não deve se limitar ao estudo de um documento. O processo exige escuta, conversão e disponibilidade para reconhecer onde Deus chama a Igreja a estar presente.
Para os jesuítas e seus colaboradores, o convite se encontra profundamente relacionado à espiritualidade inaciana: contemplar a realidade, perceber os sinais de Deus na história, discernir os caminhos possíveis e colocar-se novamente em missão, a serviço da fé, da justiça e do povo de Deus.