Dando continuidade à cobertura especial da Rádio Amar e Servir sobre o curso de aprofundamento para religiosos e religiosas, realizado no Centro Magis Anchietanum, em São Paulo, o debate sobre o abuso de poder na vida consagrada segue mobilizando participantes de diversas regiões do Brasil. Promovido pelo Núcleo Lux Mundi em parceria com a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), o encontro se consolida como um espaço essencial de escuta, formação e revisão de práticas dentro da Igreja.
Durante a programação, a reportagem conversou com a Irmã Maria Eustochia da Paixão de Cristo, OSC, clarissa e abadessa do Mosteiro Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em Feira de Santana, na Bahia. Eleita para o serviço de governo do mosteiro, a religiosa oferece uma reflexão concreta e necessária sobre o exercício da autoridade à luz da espiritualidade e da cultura do cuidado.

Ao abordar a experiência vivida no curso, a Irmã Maria Eustochia destaca a urgência de uma postura mais aberta e consciente dentro das comunidades religiosas.
“Esse curso nos chama à abertura: abertura ao diálogo, abertura ao cuidado. Tratar desse tema é muito pertinente e importante para toda a vida consagrada. Saber que o ser humano é real e precisa estar em primeiro lugar.”
A reflexão toca diretamente um dos pontos centrais da formação: a necessidade de recolocar a pessoa humana no centro das relações comunitárias e institucionais. Em um cenário onde estruturas de autoridade podem se tornar frágeis ou tensionadas, o curso propõe uma revisão profunda das práticas, incentivando relações mais saudáveis, transparentes e coerentes com o Evangelho.
No exercício de sua missão como abadessa, a Irmã Maria Eustochia reconhece o peso e a delicadeza do serviço que lhe foi confiado. Para ela, autoridade e cuidado caminham juntos, mas exigem constante discernimento.
“É um cargo de poder, mas ao mesmo tempo de responsabilidade. É um lugar onde as irmãs confiam.”
A religiosa destaca ainda que um dos maiores desafios está na linha tênue que separa o exercício legítimo da autoridade de possíveis abusos, especialmente em contextos de confiança e obediência.
“Saber onde começa e onde termina o abuso é algo muito tênue. Isso exige vigilância, escuta e muito amor no exercício do serviço.”
Inspirada pela espiritualidade inaciana, a Irmã Maria Eustochia reforça que toda autoridade, na vida consagrada, precisa estar enraizada no serviço e no amor concreto ao outro, retomando uma expressão que tem marcado o encontro.
“Estamos aqui para, em tudo, amar e servir.”
A trajetória da Irmã Maria Eustochia também se insere em um contexto mais amplo da presença das Clarissas na Bahia. O Mosteiro Imaculada Conceição da Mãe de Deus, do qual é abadessa, foi fundado em 2008 a partir da missão de irmãs vindas de Belo Horizonte, reacendendo a presença clariana no estado. Desde então, a comunidade se dedica à vida de oração e intercessão, mantendo viva a espiritualidade de Santa Clara em solo baiano.

A Rádio Amar e Servir segue acompanhando os desdobramentos do curso ao longo da semana, trazendo novas vozes, reflexões e aprofundamentos sobre um tema urgente e indispensável para o presente e o futuro da vida consagrada.