Na manhã desta sexta-feira (20), aconteceu na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo a entrega da Medalha Theodosina Ribeiro, por iniciativa da deputada Leci Brandão. A honraria foi concedida a 12 mulheres, entre elas a advogada e ativista Dra. Luciana Ribas, em reconhecimento à sua atuação na defesa dos direitos humanos.
Mais do que uma cerimônia institucional, o momento carrega um significado que ultrapassa o reconhecimento individual. A trajetória de Luciana está profundamente ligada a uma dimensão comunitária, que encontra eco direto na espiritualidade inaciana, marcada pela ideia de corpo apostólico, onde a missão nunca é solitária, mas sempre partilhada.
“Não é uma medalha para uma única mulher. Somos várias, com trajetórias diferentes, mas unidas por uma missão maior”, afirma Luciana. A fala revela uma compreensão madura de missão, em sintonia com o modo inaciano de ver o mundo, onde o sujeito não se coloca no centro, mas se entende como parte de um todo maior, chamado a servir.
Essa lógica rompe com a valorização individualista e reforça a ideia de que a transformação social nasce do encontro, da escuta e da construção coletiva, elementos centrais tanto na atuação de Luciana quanto na tradição espiritual que a inspira.
Espiritualidade inaciana: encontrar Deus na realidade
A espiritualidade inaciana, fundada por Santo Inácio de Loyola, propõe um caminho que une fé e vida concreta. Não se trata de uma espiritualidade afastada do mundo, mas profundamente inserida nele, com o convite permanente a “encontrar Deus em todas as coisas”.
Na prática, isso significa reconhecer a presença de Deus não apenas nos momentos de oração, mas também nas dores sociais, nas injustiças e nas realidades que desafiam a dignidade humana. É exatamente nesse ponto que a atuação de Luciana ganha força e coerência.
“A espiritualidade inaciana é a inspiração pra gente agir diante das injustiças, dos preconceitos e de tudo aquilo que nos entristece enquanto sociedade”, diz Luciana. Sua fala traduz um dos pilares da tradição jesuíta, que é ser contemplativo na ação, ou seja, alguém que reza, discerne e age. Esse movimento interior que leva à ação é conhecido, na tradição inaciana, como discernimento. Trata-se de um processo de escuta profunda, onde a pessoa busca compreender, à luz da fé, quais caminhos conduzem ao maior bem, não apenas individual, mas coletivo.

Ler a realidade com lucidez: fé e compromisso social
Em um país marcado por profundas desigualdades, a espiritualidade inaciana também convida a uma leitura honesta da realidade. Não há espaço para uma fé alienada ou indiferente. Pelo contrário, a fé se torna instrumento de análise, de incômodo e de transformação. Luciana reconhece as contradições do Brasil e não se esquiva delas. Ao contrário, assume uma postura de enfrentamento, iluminada pela fé.
“A fé inaciana nos dá essa força pra enfrentar questões complexas como o racismo estrutural, o machismo e as desigualdades, mesmo quando tudo isso nos desanima”, afirma Luciana.
Essa postura dialoga com o conceito inaciano de “ver, julgar e agir”, que propõe olhar a realidade com atenção, interpretá-la à luz dos valores do Evangelho e, a partir disso, assumir uma ação concreta. É uma fé que não paralisa, mas mobiliza. Nesse sentido, a esperança não é ingenuidade, mas resistência. É a capacidade de continuar atuando mesmo diante de cenários adversos, sustentado por uma convicção profunda de que a transformação é possível.
Discernimento e responsabilidade nos espaços públicos
A presença de Luciana em espaços institucionais, como conselhos e comitês, revela outra dimensão importante da espiritualidade inaciana: o discernimento aplicado à vida pública.Em ambientes marcados por disputas, interesses e, muitas vezes, vaidade, a espiritualidade se torna um eixo de equilíbrio e orientação.
“A gente precisa lembrar o tempo todo que não fala por si, mas por um coletivo”. Essa consciência reforça a responsabilidade de representar vozes que, muitas vezes, não são ouvidas. Ela também destaca que a espiritualidade oferece critérios para agir com ética e firmeza. “A espiritualidade nos ensina humildade, ética e a não ceder quando isso fere nossos valores”.
Na tradição inaciana, isso está diretamente ligado à busca pela liberdade interior, ou seja, a capacidade de tomar decisões sem se deixar conduzir por interesses pessoais, pressões externas ou vaidades. É uma liberdade que permite agir com verdade.
Opção pelos pobres: onde a fé se torna concreta
Um dos pontos mais fortes de convergência entre a espiritualidade inaciana e a atuação de Luciana está na opção pelos mais pobres. Trata-se de um princípio profundamente presente na Doutrina Social da Igreja e assumido com radicalidade por quem vive essa espiritualidade. No caso de Luciana, essa opção se materializa na defesa da população em situação de rua, um dos grupos mais vulneráveis e invisibilizados da sociedade.
“Quando a gente fala da população em situação de rua, estamos falando de um grupo historicamente excluído e criminalizado”, reforça com firmeza Luciana. Ao reconhecer essa realidade, ela também aponta para a responsabilidade coletiva diante dessa exclusão.
“Existe uma dívida histórica que precisa ser enfrentada”, afirma Luciana. Sua atuação, nesse sentido, não nasce de um sentimento de pena, mas de justiça. Isso fica ainda mais claro quando ela afirma: “nossa atuação não é nem um pouco caridade. É a nossa obrigação como profissionais do Direito e como sociedade”.
A frase sintetiza, de forma contundente, uma compreensão madura da fé. Não se trata de assistencialismo, mas de compromisso com a dignidade humana.
Missão que continua: fé, justiça e envio
Ao receber a Medalha Theodosina Ribeiro, Luciana não interpreta o momento como um ponto de chegada, mas como parte de um caminho que continua. Na espiritualidade inaciana, toda experiência de reconhecimento é também um envio, um chamado a seguir em missão.
“A gente não está sozinho. A gente fala por muitos. E é isso que dá sentido à nossa missão”
Essa consciência de pertencimento e responsabilidade revela uma fé que não se fecha em si mesma, mas que se expande na direção do outro. Uma fé que escuta, discerne e age. Entre fé e justiça, contemplação e ação, a trajetória de Luciana Ribas se apresenta como um testemunho concreto de que a espiritualidade, quando vivida com profundidade, se torna presença ativa no mundo. É nesse lugar, onde a dignidade humana é ferida, que sua atuação encontra sentido e onde a espiritualidade inaciana continua a se revelar como caminho de transformação.