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Entre sementes, memórias e chamados: jesuítas da América Latina e do Caribe se unem em oração pelas vocações
Por ocasião da celebração dos santos e beatos da Companhia de Jesus, encontro reúne vozes de diferentes países e propõe uma reflexão sobre o discernimento, a força do testemunho e a responsabilidade de cultivar uma cultura vocacional
Por Murilo Galhardo
Publicado em 05/11/2026 15:39 • Atualizado 05/11/2026 21:49
Jesuítas

O que faz nascer uma vocação? Como reconhecer o chamado de Deus em meio às expectativas do mundo? E de que maneira famílias, comunidades e obras apostólicas podem ajudar alguém a descobrir o sentido de sua própria existência?

Essas perguntas atravessaram a oração pelas vocações jesuítas, realizada por ocasião da celebração de todos os santos e beatos da Companhia de Jesus, em 5 de novembro. Reunindo religiosos e colaboradores de diferentes países da América Latina e do Caribe, o encontro propôs uma experiência de espiritualidade e discernimento que ultrapassou o pedido pelo surgimento de novas vocações à vida religiosa.

Intitulada Oração por uma Cultura Vocacional: um chamado que nos une, a celebração foi construída a partir da imagem de uma semente. Assim como a terra precisa ser preparada e cultivada para produzir frutos, também uma vocação necessita de acolhida, acompanhamento, liberdade e tempo para amadurecer.

Ao longo da transmissão, quatro movimentos orientaram a experiência espiritual: preparar a terra, espalhar a semente, cultivar a gratidão e colher os frutos. O itinerário reuniu reflexões bíblicas, momentos de silêncio, perguntas para o exame pessoal e testemunhos de diferentes realidades, apresentando a vocação como um caminho permanente de escuta e resposta ao chamado de Deus.

Uma cultura vocacional começa pelo testemunho

Na abertura, o padre Mike Martínez, SJ, do Caribe, recordou a memória dos santos e beatos jesuítas como uma imensa comunidade de testemunhas que, em diferentes épocas e lugares, encontraram no seguimento de Jesus Cristo o sentido de suas vidas.

A celebração dessa história, entretanto, não foi apresentada apenas como recordação do passado. O religioso convidou os participantes a olhar para a própria trajetória e reconhecer que a oração pelas vocações também precisa alcançar aqueles que já fizeram suas escolhas.

Quem reconheceu sua vocação foi chamado a examinar como tem vivido e cuidado desse compromisso. Aos que ainda procuram compreender seu caminho, o encontro ofereceu um espaço de silêncio e discernimento.

O irmão Rafael Hernández, SJ, da Colômbia, aprofundou essa perspectiva ao recordar que as vocações não surgem isoladamente. Elas encontram condições para nascer e amadurecer nas relações construídas na família, na escola, na paróquia, na universidade e nos espaços de compromisso social.

A reflexão apresentou uma compreensão ampla da cultura vocacional: mais do que promover o ingresso de novos membros na vida religiosa, trata-se de ajudar cada pessoa a reconhecer seus dons e descobrir como colocá-los a serviço do Reino de Deus.

Nesse horizonte, a promoção vocacional deixa de ser responsabilidade exclusiva de setores especializados e passa a envolver toda a comunidade. Cultivar vocações significa construir ambientes nos quais os jovens possam apresentar suas perguntas, confrontar suas inquietações com o Evangelho e encontrar acompanhamento respeitoso em suas escolhas.

Preparar a terra e confiar na semente

O primeiro movimento da oração foi conduzido por Jefferson Albuquerque, SJ, do Brasil, que retomou a dinâmica dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola para convidar os participantes a preparar a mente e o coração.

Antes de buscar respostas, é preciso reconhecer a própria condição interior. Como está minha terra hoje? Como está meu coração? O que trago comigo neste momento?

As perguntas, acompanhadas de um convite ao silêncio, apresentaram o discernimento como uma experiência que exige disponibilidade para perceber os sentimentos, desejos e inquietações que atravessam a vida.

A imagem da terra também revelou uma responsabilidade coletiva: não basta desejar que novas vocações floresçam. É necessário cuidar dos ambientes nos quais elas poderão crescer.

Na sequência, Mario Montemayor, SJ, do México, introduziu o movimento de espalhar a semente, convidando os participantes a deixar-se surpreender pela Palavra de Deus.

A reflexão foi inspirada na parábola da semente que cresce, narrada no Evangelho de Marcos (Mc 4,26-29). No texto bíblico, um homem lança a semente à terra e, enquanto os dias passam, vê a planta germinar e crescer sem compreender inteiramente como isso acontece.

A passagem ajudou a iluminar um princípio fundamental do discernimento: embora o acompanhamento humano seja indispensável, a vocação nasce da iniciativa de Deus.

O padre Mike Martínez retomou essa compreensão ao afirmar que é Deus quem toma a iniciativa, chama e convida.

A reflexão conduziu a uma pergunta desafiadora para quem acompanha outras pessoas: estamos realmente ajudando-as a descobrir a plenitude de sua vida no chamado de Deus ou apenas conduzindo-as a corresponder às expectativas externas?

A questão adquire particular importância em uma sociedade marcada pela pressão por resultados, desempenho e reconhecimento. O discernimento inaciano apresenta outro horizonte: aprender a escutar, respeitar o tempo de cada pessoa e confiar que o amadurecimento de uma vocação não pode ser imposto.

Como a semente lançada à terra, o chamado precisa encontrar condições para crescer. Seu desenvolvimento exige cuidado, mas também confiança diante daquilo que não pode ser controlado.

A memória agradecida de quem ajudou a construir o caminho

Um dos momentos mais significativos da celebração foi dedicado à gratidão.

Georges Germain, SJ, do Haiti, relacionou o cultivo da terra ao cuidado com a criação e ao acompanhamento das vocações. Sua reflexão destacou que a vida possui processos próprios de crescimento e que acompanhar alguém significa também reconhecer e respeitar esses processos.

Na continuidade, o irmão Rafael Hernández recordou a importância da ação de graças na experiência cristã e convidou os participantes a trazer à memória pessoas que marcaram suas histórias.

A oração ganhou, então, uma dimensão profundamente humana. Foram lembrados professores que deixaram ensinamentos inesquecíveis, religiosos que testemunharam a alegria de Jesus, sacerdotes que acompanharam experiências espirituais e familiares que acolheram dúvidas e inquietações sem medo.

Esse momento reuniu também intervenções do padre Santiago Tobón, SJ, de Diana Santana e do padre Julián Bustos, SJ, da Colômbia.

Os participantes evocaram rostos e experiências que ajudaram a revelar o sentido da própria caminhada. Entre essas memórias, ganharam espaço também pessoas comprometidas com a transformação social, que colocaram seus esforços a serviço de uma sociedade mais justa.

A gratidão foi apresentada não apenas como reconhecimento pelo passado, mas como exercício espiritual capaz de iluminar o presente.

Na tradição inaciana, recordar os dons recebidos ajuda a reconhecer a presença de Deus na própria história. Por isso, a memória daqueles que acompanharam uma escolha vocacional também se torna convite à responsabilidade: o cuidado recebido pode transformar-se em cuidado oferecido a outras pessoas.

A reflexão deixou evidente que ninguém descobre sua vocação sozinho. Cada caminho é atravessado por encontros, testemunhos, gestos de acolhida e experiências que, muitas vezes silenciosamente, ajudam a revelar o amor de Deus.

Mais do que números, a autenticidade de uma vida

Na etapa dedicada à resposta ao chamado de Cristo, Guillermo Jauregui, SJ, do Uruguai, apresentou reflexões do papa Leão XIV sobre a promoção das vocações.

A intervenção destacou que o surgimento de novas vocações não depende simplesmente de estratégias elaboradas em escritórios ou de campanhas vocacionais. A familiaridade com o Evangelho, a oração e o silêncio ocupam um lugar essencial nesse processo.

Ao abordar a diminuição do número de religiosos, a reflexão também propôs uma mudança de perspectiva: em vez de olhar para essa realidade apenas com medo ou desconfiança, é necessário reconhecer nela uma oportunidade para examinar a autenticidade do próprio testemunho.

O convite recoloca no centro uma pergunta fundamental: o que as novas gerações encontram quando se aproximam de uma comunidade religiosa?

Mais do que discursos sobre a beleza da vocação, os jovens precisam encontrar experiências concretas de fraternidade, alegria, coerência e disponibilidade para servir.

Essa compreensão não elimina os desafios enfrentados pela vida consagrada, mas propõe enfrentá-los a partir da fidelidade ao Evangelho, e não exclusivamente da preocupação com resultados numéricos.

A reflexão também recordou que seguir Jesus não exige uma vida impecável, mas um coração disponível para deixar-se transformar pela graça de Deus, com humildade, a cada dia.

Dessa maneira, a celebração chegou a uma de suas afirmações mais expressivas: a vocação tem muito mais a ver com o ser do que com o fazer.

Um chamado que continua

Na conclusão, o padre Mike Martínez, SJ, retomou o itinerário percorrido e conduziu os participantes à oração final.

A prece reuniu os sentimentos despertados durante o encontro em um pedido de sabedoria, clareza e fidelidade ao chamado de Deus. Cada participante foi convidado a reconhecer o sentido de sua vocação e descobrir como transformar a própria existência em resposta ao amor recebido.

Em um de seus trechos, a oração expressou esse desejo:

“Espírito Santo, enche meu coração de sabedoria e meu caminho de clareza. Que cada passo seja uma ocasião para descobrir e escolher teu amor encarnado.”

A súplica prosseguiu com o compromisso de ser, no mundo, mãos, pés e voz de Cristo, retomando uma expressão central da espiritualidade de Santo Inácio de Loyola: em tudo amar e servir.

Sob a intercessão de Maria, São José, Santo Inácio e dos santos e beatos jesuítas, o encontro foi concluído reafirmando o desejo de que cada pessoa, comunidade e obra apostólica da Companhia de Jesus se torne terreno fértil para o crescimento da fé, da esperança e do amor.

Mais do que um momento de oração, a iniciativa deixou uma provocação à Companhia de Jesus e a todos aqueles que compartilham sua missão. Promover vocações significa também oferecer testemunhos capazes de despertar perguntas, comunidades dispostas a acolher e espaços nos quais cada jovem possa discernir com liberdade.

Em um mundo que frequentemente exige respostas imediatas, a espiritualidade inaciana recorda que algumas das escolhas mais importantes da vida precisam de tempo, silêncio e acompanhamento.

A semente não floresce no instante em que é lançada à terra. Antes dos frutos, existe um caminho silencioso de crescimento, cuidado e transformação.

Cultivar vocações é, portanto, cultivar a esperança de que cada pessoa descubra o sentido de sua existência e encontre coragem para transformá-lo em amor e serviço.

Assista à celebração completa: https://www.youtube.com/watch?v=Wv4Ci25jU1Y

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