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CF 2027: Seminário Nacional aponta caminhos para fazer do cuidado das crianças uma cultura
Durante quatro dias, encontro em Brasília reuniu representantes de todo o país em um percurso de escuta, reflexão e compromisso; participação das próprias crianças reforçou o compromisso por uma Igreja que acolhe, protege e escuta
Por Ronnaldh Oliveira
Publicado em 28/09/2026 15:37 • Atualizado 28/09/2026 15:40
Igreja

Olhar para a realidade das crianças, deixar-se interpelar por suas vozes e converter a escuta em compromisso. Esse foi o percurso construído ao longo dos quatro dias do Seminário Nacional da Campanha da Fraternidade 2027, encerrado neste domingo (27), em Brasília. O encontro, iniciado na quinta-feira (24), reuniu agentes de pastoral e representantes de Igrejas Particulares, Regionais, pastorais, movimentos e organismos eclesiais para aprofundar o tema “Fraternidade e o cuidado das crianças”, iluminado pelo lema “Quem recebe uma criança em meu nome, a mim recebe” (Mt 18,5).

O Seminário buscou preparar os participantes para multiplicar, nas diferentes realidades do país, uma proposta de conversão que alcance famílias, comunidades, instituições e estruturas eclesiais. Desde a abertura, o horizonte foi apresentado pelo bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Ricardo Hoepers. “Estamos começando muito mais do que uma preparação para uma Campanha. Estamos assumindo juntos uma missão”, afirmou.

A missão, segundo o bispo, exige que o cuidado deixe de ser compreendido como um conjunto de iniciativas isoladas e passe a constituir uma maneira permanente de a Igreja se relacionar com as crianças. “Falar de cuidado não pode significar apenas produzir um belo discurso sobre as crianças. Cuidado precisa tornar-se cultura”, destacou.

Da realidade das infâncias ao compromisso

Organizado a partir do caminho metodológico do Ver, Julgar/Iluminar e Agir, o Seminário possibilitou uma aproximação progressiva às diferentes dimensões da vida das crianças. O processo colocou em diálogo temas como família, educação, saúde, direito à convivência e ao brincar, participação, evangelização, ambientes digitais, diferentes situações de vulnerabilidade e prevenção das violências. A proposta foi evitar uma compreensão abstrata da infância e reconhecer que falar de “crianças” significa considerar realidades sociais, familiares, culturais e territoriais diversas. Esse olhar está relacionado ao objetivo geral da CF 2027, que propõe promover um caminho de conversão cristã para a corresponsabilidade no cuidado das crianças.

Na abertura do encontro, dom Ricardo apresentou essa conversão em diferentes dimensões: uma mudança do olhar, para reconhecer a criança como pessoa e sujeito de dignidade, direitos, fé e participação no presente; das relações, para aprender a escutar sem dominar, orientar sem sufocar e proteger sem silenciar; dos vínculos, para que famílias e comunidades sejam lugares de pertencimento, segurança e amor; e dos processos, para que estruturas pastorais e eclesiais se tornem ambientes seguros e comprometidos com a prevenção das violências. Palavra oficial de abertura do …

A reflexão incluiu também o reconhecimento das situações em que a própria Igreja não conseguiu proteger adequadamente crianças e adolescentes. “Há feridas que precisam ser reconhecidas; vítimas que precisam ser escutadas e acolhidas; práticas que precisam ser revistas; responsabilidades que não podem ser omitidas”, afirmou o secretário-geral da CNBB.

Ética do cuidado: parar para perceber quem está diante de nós

O aprofundamento do Julgar/Iluminar reuniu as dimensões bíblico-teológica e ética. A reflexão bíblica foi conduzida pelo padre Márcio Fernandes, enquanto a professora Maria Inês Millen aprofundou a ética do cuidado.

Em sua exposição, Maria Inês chamou a atenção para uma sociedade atravessada pela velocidade, produtividade, competição e uso intenso das tecnologias. Nesse contexto, cuidar implica recuperar a capacidade de dedicar tempo e atenção às pessoas. “A pressa excessiva com que a gente conduz a vida, ou como a vida nos conduz, carrega consigo descuidos e desatenções insuportáveis”, afirmou.

Para a professora, o cuidado não constitui um elemento secundário das relações humanas. “O cuidado é o que confere ao ser humano a sua humanidade”, destacou ao relacioná-lo também aos princípios da solidariedade, da subsidiariedade e do bem comum. A reflexão levou os participantes a pensar no cuidado não como dependência, mas como atitude capaz de favorecer a dignidade e o desenvolvimento integral da pessoa. Nesse caminho, Maria Inês retomou a necessidade de cultivar um “olhar demorado”: uma disposição para perceber aquilo que a velocidade cotidiana pode tornar invisível.

Ao recorrer à parábola do bom samaritano, sintetizou: “O samaritano da parábola é aquele que passa e fica”. A perspectiva cristã do cuidado também foi relacionada à possibilidade de permanecer junto às pessoas mesmo quando não é possível solucionar imediatamente seu sofrimento. “Podemos curar às vezes, mas cuidar sempre”, afirmou.

Do cuidado pessoal a uma cultura institucional

As reflexões do Seminário mostraram ainda que boa vontade individual não é suficiente para garantir ambientes seguros. Experiências compartilhadas durante a plenária apontaram para a necessidade de normativas claras, formação permanente, estruturas de proteção, indicadores e comunicação. A discussão alcançou escolas, catequese, grupos de coroinhas, pastorais, movimentos e outros ambientes frequentados por crianças.

A discussão evidenciou que a cultura do cuidado também precisa alcançar o comportamento cotidiano no ambiente digital. Fotografar uma criança não significa automaticamente possuir autorização para publicar sua imagem. Os participantes refletiram ainda sobre a necessidade de saber como agir diante de uma eventual revelação espontânea de violência feita por uma criança, reforçando a importância da formação dos agentes e da existência de protocolos e serviços eclesiais de proteção acessíveis. As discussões também provocaram os participantes a olhar para crianças que permanecem pouco visíveis nas próprias comunidades. Um dos testemunhos apresentados abordou as dificuldades enfrentadas por crianças neurodivergentes e suas famílias para participar da vida eclesial. Foram relatadas situações de mães que deixaram de frequentar celebrações porque seus filhos não encontravam ambientes preparados para acolhê-los.

A experiência provocou uma pergunta que ultrapassa a simples adaptação de atividades pastorais: quem são as crianças que ainda não conseguem encontrar lugar nas comunidades? A reflexão ampliou-se também para aquelas que não chegam à catequese, às pastorais ou às instituições católicas. Nesse contexto, a experiência da Pastoral da Criança foi recordada como expressão de uma Igreja capaz de sair de seus espaços habituais e ir ao encontro das famílias.

Essa perspectiva retomou uma das afirmações mais fortes de dom Ricardo na abertura do Seminário: “Nenhuma criança pode ser invisível para a Igreja. Nenhuma criança pode ser esquecida. Nenhuma violência pode encontrar abrigo em nosso silêncio. Nenhum sofrimento infantil pode ser considerado problema dos outros”.

Escutar, e não apenas falar sobre as crianças

Depois do percurso de análise e iluminação, o sábado foi dedicado ao Agir. Dom Ricardo conduziu a apresentação dos sete compromissos propostos para a CF 2027, seguida de uma grande roda de conversa entre os participantes. A etapa buscou converter as reflexões acumuladas durante o Seminário em caminhos que possam ser assumidos pelas Igrejas locais. Nesse sentido, a Campanha pretende alcançar desde as relações familiares até os processos institucionais, passando pela catequese, escolas, pastorais, movimentos, paróquias, dioceses e Regionais.

Um dos eixos que atravessou todo o Seminário foi a necessidade de superar práticas nas quais os adultos falam constantemente sobre as crianças, mas oferecem poucos espaços para falar com elas. “Talvez a primeira atitude de quem deseja cuidar seja parar de falar pela criança e começar a falar com a criança”, provocou dom Ricardo na abertura.  A afirmação ganhou forma concreta durante a etapa do Agir, no sábado (26). Crianças de turmas de catequese da Arquidiocese de Brasília foram convidadas para participar do encontro. Diante dos participantes, dom Ricardo sentou-se no chão com elas e conduziu uma roda de conversa.

A cena tornou-se uma das imagens mais significativas dos quatro dias de trabalho. Em vez de discutir somente quais ações deveriam ser realizadas em favor das crianças, os participantes foram convidados a escutar o que elas próprias tinham a dizer. Na plenária posterior, uma das intervenções definiu o gesto como “a imagem da Igreja que senta com as crianças no chão, numa roda, e escuta”, acrescentando que essa postura é “estruturante” para a Campanha da Fraternidade.

A própria dinâmica da conversa revelou a complexidade da escuta. Participantes observaram que, inicialmente, algumas respostas pareciam corresponder àquilo que as crianças imaginavam que os adultos gostariam de ouvir. Aos poucos, porém, a conversa ganhou espontaneidade. “Depois, a coisa foi fluindo, e a gente começa a perceber, genuinamente, a criança”, registrou uma das intervenções.

Identidade visual coloca o universo infantil no centro

Durante o Seminário, os participantes também aprofundaram a identidade visual da CF 2027, desenvolvida para dialogar com diferentes contextos e permitir a participação criativa de crianças, escolas e comunidades. Recortes e colagens de papel, fotografias, cores vibrantes, elementos inspirados em desenhos infantis e símbolos como casa, cruz, coração, livro, pomba, flor, bola, borboleta, pipa e arco-íris procuram aproximar a linguagem visual da experiência das crianças e comunicar valores como cuidado, acolhimento, proteção, fé e esperança. A identidade, a oração e a letra do hino da CF 2027 já haviam sido apresentadas pela CNBB em julho.

Domingo conclui o percurso e inicia a multiplicação

O domingo (27), último dia do encontro, foi marcado por avaliações, sínteses e escuta dos presentes. A programação foi concluída com a Eucaristia, presidida por dom Severino Clasen, arcebispo metropolitano de Maringá.   O encerramento, entretanto, não representa o fim do processo. Os participantes retornam às diferentes regiões do país com a missão de multiplicar a reflexão e contribuir para que a proposta da CF 2027 alcance dioceses, paróquias, comunidades, pastorais, movimentos, escolas e famílias.

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