Em Ribeirão Cascalheira, no interior de Mato Grosso, a movimentação já anuncia que algo profundamente significativo está para acontecer. Cruzes são pintadas, faixas são preparadas, cantos ecoam pelas comunidades e caravanas enfrentam longas horas de estrada para chegar a um território marcado pela resistência, pela fé e pelo sangue de homens e mulheres que entregaram a vida em defesa dos pequenos.
Nos dias 18 e 19 de julho, romeiros e romeiras de diversas regiões do Brasil, de países da América Latina e também de outros continentes participam da 8ª Romaria dos Mártires da Caminhada. Com o tema “Testemunhas da Esperança”, a edição de 2026 marca os 50 anos do martírio do jesuíta Pe. João Bosco Penido Burnier e celebra igualmente a memória jubilar do missionário salesiano Pe. Rodolfo Lunkenbein e do indígena Simão Bororo, mortos em 1976.
Mais que um encontro religioso, a Romaria é uma grande experiência de comunhão entre espiritualidade, compromisso social e defesa da vida. Reúne comunidades eclesiais de base, pastorais sociais, movimentos populares, povos indígenas, agentes de pastoral, religiosos, religiosas, leigos e leigas que reconhecem nos mártires não apenas personagens do passado, mas sementes de esperança que continuam florescendo nas lutas do presente.
Uma memória que não pode ser apagada
A história da Romaria está profundamente ligada ao martírio do Pe. João Bosco Burnier, SJ. Na noite de 11 de outubro de 1976, ele estava em Ribeirão Bonito, atual Ribeirão Cascalheira, acompanhando Dom Pedro Casaldáliga. Os dois participavam das celebrações de Nossa Senhora Aparecida quando foram informados de que mulheres estavam sendo presas, agredidas e torturadas na delegacia local.
Dom Pedro e Pe. João Bosco dirigiram-se ao local para interceder pelas vítimas. Ao denunciar a violência e pedir que as agressões fossem interrompidas, o jesuíta foi atacado por policiais, recebeu uma coronhada e foi atingido por um tiro. Gravemente ferido, foi levado para Goiânia, onde morreu no dia 12 de outubro de 1976.
O religioso foi assassinado por se colocar ao lado de mulheres pobres que sofriam violência nas mãos daqueles que deveriam protegê-las. Sua trajetória também foi marcada pelo serviço missionário junto aos povos indígenas e pela defesa incondicional da dignidade humana. Em 2026, a Companhia de Jesus recorda os 50 anos de sua morte como um tempo de memória, resistência e renovação do compromisso com os direitos humanos.
No lugar onde a violência tentou silenciar sua voz, o povo construiu um espaço de memória. A capela e, posteriormente, o Santuário dos Mártires da Caminhada transformaram-se em sinais de que a vida doada não desaparece. A antiga dor converteu-se em peregrinação, oração, organização comunitária e compromisso com as causas pelas quais tantos homens e mulheres foram perseguidos e assassinados.
Hoje, o Santuário guarda imagens e histórias de mártires do Brasil, da América Latina e do Caribe. São indígenas, camponeses, missionários, sindicalistas, mulheres, jovens, lideranças populares e defensores da Casa Comum. Pessoas de diferentes origens, vocações e tradições, unidas pela fidelidade aos pobres e pela coragem de enfrentar estruturas de violência e opressão.
“A Romaria é um grito profético”
Para Thiesco Crisóstomo, integrante da Irmandade dos Mártires da Caminhada e responsável por sua equipe de comunicação, a Romaria carrega a missão de impedir que a história seja apagada.
Em depoimento à Rádio Amar e Servir, ele explicou que a celebração é, antes de tudo, um exercício de memória. Não uma lembrança distante ou presa ao passado, mas uma memória que denuncia a violência e ajuda as novas gerações a compreenderem por que tantas pessoas deram a vida.
“É justamente esse grito, primeiro, de memória. Para a gente não esquecer o que aconteceu naquela noite, para não esquecer o que aconteceu ao Padre João Bosco e para não esquecer o porquê ele foi martirizado.”
Segundo Thiesco, Pe. João Bosco foi morto porque escolheu defender os pobres e os pequenos. No episódio que culminou em seu martírio, essa opção tornou-se concreta na defesa de mulheres que estavam sendo violentadas por agentes do Estado.
“Ele foi martirizado defendendo os pobres, defendendo os pequenos. O martírio especificamente tem ligação com a defesa da vida das mulheres que estavam sendo violentadas pela polícia.”
Ao recordar Margarida e Santana, as mulheres pelas quais Dom Pedro Casaldáliga e Pe. João Bosco intercederam, a Romaria também chama a atenção para uma realidade que ainda atravessa o Brasil: a violência contra as mulheres, especialmente contra aquelas que vivem em territórios empobrecidos, rurais ou distantes dos grandes centros.
Por isso, recordar o martírio de Burnier não significa apenas homenagear um religioso. Significa reafirmar que nenhuma violência pode ser naturalizada, escondida ou justificada. Significa declarar que a fé cristã não pode permanecer indiferente quando a dignidade humana é ferida.
Uma caminhada iniciada em 2011
A ligação de Thiesco com a Romaria começou em 2011. Naquele período, ele estava a serviço da Pastoral da Juventude, na Secretaria Nacional, representando a PJ em âmbito brasileiro.
Nascido em uma realidade marcada pelas Comunidades Eclesiais de Base no sul do Pará e pela caminhada da Diocese de Marabá, Thiesco já conhecia as histórias dos mártires e as lutas sociais existentes na região amazônica. Mesmo com as grandes distâncias, ele reconhecia uma conexão profunda entre o sul e sudeste do Pará, o Bico do Papagaio, São Félix do Araguaia e toda a região do Araguaia.
São territórios diferentes, mas atravessados por desafios semelhantes: conflitos pela terra, violência contra povos indígenas, exploração de trabalhadores, perseguição a lideranças populares e ameaças contra pessoas comprometidas com a justiça.
Depois da primeira participação, em 2011, Thiesco continuou retornando à Romaria e se envolvendo cada vez mais com a Irmandade dos Mártires da Caminhada. Atualmente, ele atua na comunicação, colaborando com a divulgação das atividades, a preservação das histórias e a organização da Galeria dos Mártires disponível no portal da Irmandade.
A comunicação, nesse contexto, também se torna um serviço à memória. Cada fotografia, testemunho, biografia e registro ajuda a impedir que as vítimas sejam transformadas apenas em números ou esquecidas com o passar dos anos.

Testemunhas da Esperança
A escolha do tema “Testemunhas da Esperança” dialoga com o caminho vivido pela Igreja no Jubileu da Esperança. Para Thiesco, a expressão resume o sentido espiritual e profético da Romaria.
“A esperança é não deixar morrer a profecia, não deixar morrer a memória.”
A Romaria sempre esteve ligada a frases que expressam sua espiritualidade e seu compromisso: “Vidas pela Vida”, “Vidas pelo Reino” e “Testemunhas do Reino” são algumas das expressões que acompanharam edições anteriores.
Em 2026, ser testemunha da esperança significa caminhar mesmo diante das ameaças, das injustiças e das situações que parecem não ter solução. Não se trata de uma esperança ingênua ou passiva, mas de uma esperança que se organiza, denuncia, celebra e constrói alternativas.
Thiesco recorda que todo romeiro e toda romeira que chega a Ribeirão Cascalheira carrega algo dessa missão.
“Todo romeiro e toda romeira que vem para a Romaria dos Mártires é um peregrino da esperança. E, além de ser peregrino da esperança porque caminha, também é uma testemunha da esperança. A esperança que é Jesus, a esperança que é o Reino de Deus.”
A expressão também guarda uma conexão especial com o legado do Papa Francisco, que convocou a Igreja a sair de si mesma, aproximar-se das periferias e escutar o clamor dos pobres e da Terra. Ser testemunha da esperança, portanto, é continuar caminhando com aqueles que foram colocados à margem, reconhecendo em suas vidas, lutas e sonhos a presença do próprio Cristo.
Uma cidade inteira envolvida
A realização da Romaria mobiliza intensamente a comunidade de Ribeirão Cascalheira e toda a Prelazia de São Félix do Araguaia. Os preparativos não acontecem apenas nos dias principais. Durante a semana, comunidades urbanas, rurais e do sertão realizam ofícios, rodas de conversa, cantorias, momentos de oração e atividades de formação.
Thiesco chegou à cidade acompanhado da esposa, Bianca, e da filha Lívia, de três anos. A família percorreu mais de 20 horas de carro, saindo de São Paulo. Bianca também integra a Irmandade e participa da equipe de comunicação.
No barracão da Romaria, voluntários trabalham na pintura das faixas e das cruzes que serão utilizadas nas celebrações e caminhadas. O trabalho coletivo expressa uma das características mais fortes do encontro: tudo é realizado em mutirão.
“A comunidade aqui de Ribeirão Cascalheira se envolve sempre e é protagonista da Romaria. Estamos trabalhando, pintando as faixas, pintando as cruzes. Está sendo uma experiência bonita de organização e preparação.”
Antes da programação principal, um tríduo celebrativo recorda diferentes memórias jubilares. A cada noite, são homenageados mártires que completam dez, quinze, vinte, trinta, quarenta ou cinquenta anos de sua entrega. Na celebração dos cinquenta anos, ganham destaque Pe. João Bosco Burnier, Pe. Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo.
As caravanas chegam de diferentes partes do Brasil e da América Latina. Também são aguardados participantes vindos de países africanos e europeus. Cada grupo traz consigo histórias, símbolos, bandeiras, cruzes e nomes de mártires ligados às realidades de seus próprios territórios.
Assim, Ribeirão Cascalheira torna-se, por alguns dias, ponto de encontro de muitas caminhadas. Um chão onde a dor não é escondida, mas acolhida e transformada em oração, solidariedade e compromisso.
Jesuítas Brasil e Rádio Amar e Servir a caminho da Romaria
A Província dos Jesuítas do Brasil e a Rádio Amar e Servir estarão presentes nessa grande celebração. O Ir. Ubiratan Costa, SJ, da Comunicação da Província dos Jesuítas do Brasil, e Murilo Galhardo, produtor e repórter da Rádio Amar e Servir, estão a caminho de Ribeirão Cascalheira para acompanhar e compartilhar as experiências da Romaria dos Mártires.
Ao longo dos próximos dias, a cobertura apresentará os bastidores da organização, a chegada das caravanas, os momentos celebrativos, as histórias dos mártires e os testemunhos de quem atravessa o país para participar deste encontro.
Mais do que registrar uma programação, a proposta é comunicar a experiência vivida no território: os rostos, os cantos, as orações, o encontro entre gerações e a força de comunidades que continuam acreditando na justiça, mesmo depois de tantas perdas.
Acompanhe os conteúdos, entrevistas, vídeos e registros especiais nos perfis oficiais @jesuitasbrasiloficial e @radioamareservir.
Um convite para caminhar, mesmo à distância
Para as pessoas que ainda podem se deslocar até Ribeirão Cascalheira, Thiesco deixa o convite para participar presencialmente. Aos que já estão na estrada, dirige uma mensagem de acolhida e boas-vindas.
Mas a Romaria também pode ser vivida por quem permanecer em casa. As comunidades são convidadas a rezar, celebrar, recordar os mártires e acompanhar as transmissões e publicações pelas redes sociais.
“Quem puder vir, venha. Quem estiver vindo, já desejo as boas-vindas. Quem não puder vir, que reze conosco, que esteja em sintonia. É sempre importante que a gente se conecte, mesmo nas distâncias, pelas orações, pelas celebrações comunitárias, nas paróquias e nos grupos.”
O convite é para que cada pessoa faça memória de Pe. João Bosco Burnier e de tantos homens e mulheres que entregaram a vida pela construção de um mundo mais justo. Uma memória que não aprisiona no sofrimento, mas provoca decisões, desperta responsabilidades e fortalece a caminhada.
“Que estejam conosco neste tempo de memória, de profecia e de muita esperança.”
A Romaria dos Mártires da Caminhada recorda que o sangue derramado pela justiça não foi inútil. Onde a violência tentou produzir silêncio, nasceram comunidades. Onde tentaram apagar histórias, ergueu-se um santuário. Onde parecia existir apenas morte, brotou uma multidão disposta a continuar caminhando.
Em Ribeirão Cascalheira, os mártires continuam falando. Suas vidas recordam que o projeto de Jesus passa pela defesa dos pobres, pela dignidade das mulheres, pelo respeito aos povos indígenas, pelo cuidado com a Terra e pela construção de relações verdadeiramente fraternas.
Cinquenta anos depois do martírio de Pe. João Bosco Burnier, sua memória permanece viva. Não apenas nos monumentos, nas fotografias ou nos livros, mas em cada pessoa que decide não se calar diante da injustiça.
Com os mártires da caminhada, somos convidados a ser, também nós, testemunhas da esperança.