O Papa Leão XIV realizou, nesta segunda-feira, 22 de junho, sua primeira visita à sede do Programa Mundial de Alimentos, conhecido internacionalmente como World Food Programme, em Roma. O encontro teve forte peso simbólico e diplomático: diante de representantes de uma das principais agências humanitárias da ONU, o Pontífice fez um apelo direto à comunidade internacional para que a fome deixe de ser tratada como consequência inevitável das crises e passe a ser enfrentada como uma ferida moral, política e humana.
O Programa Mundial de Alimentos atua em situações de emergência, conflitos, desastres climáticos e contextos de extrema vulnerabilidade, levando assistência alimentar a populações que não conseguem produzir ou acessar alimento suficiente. Reconhecido com o Prêmio Nobel da Paz em 2020, o organismo se tornou uma referência mundial no combate à fome e na defesa da segurança alimentar como caminho para a paz.
A visita do Papa aconteceu em um momento delicado para a cooperação internacional. Guerras prolongadas, instabilidade econômica, mudanças climáticas, deslocamentos forçados e cortes em ajudas humanitárias têm ampliado a fome em várias regiões do mundo. Nesse cenário, Leão XIV afirmou que a crise atual não pode ser vista apenas como uma sequência de emergências isoladas, mas como sinal de um sistema global que muitas vezes produz desigualdade e depois tenta remediar suas próprias consequências.
Ao discursar, o Pontífice destacou a profunda convergência entre a missão do Programa Mundial de Alimentos e a missão da Igreja Católica: proteger a dignidade humana, defender os mais vulneráveis e promover uma fraternidade concreta. Para Leão XIV, combater a fome não significa apenas distribuir alimentos, mas enfrentar as causas estruturais que impedem milhões de pessoas de viver com dignidade.
O Papa foi firme ao denunciar o paradoxo do mundo atual. Mesmo diante de uma capacidade produtiva global sem precedentes, ainda crescem as regiões marcadas pela fome, pela exclusão e pela insegurança alimentar. Segundo ele, as mesmas forças que impulsionam o crescimento econômico podem, quando não são orientadas pelo bem comum, aprofundar a marginalização dos mais pobres.
Leão XIV também chamou atenção para aquilo que classificou como uma “burocratização da solidariedade” e uma “mercantilização da vida humana”. Na prática, isso acontece quando o acesso a bens essenciais, como alimento, água e saúde, passa a depender de interesses econômicos, cálculos estratégicos ou disputas geopolíticas. Quem não produz valor mensurável, alertou o Papa, corre o risco de se tornar invisível.
Um dos pontos mais fortes do discurso foi a denúncia da inversão de prioridades no cenário internacional. Recordando palavras do Papa Francisco, que em 2016 já havia alertado sobre os obstáculos políticos e ideológicos que dificultam a chegada da ajuda humanitária, Leão XIV afirmou que, muitas vezes, as armas circulam com mais facilidade do que os alimentos. Por isso, resumiu com força: é mais fácil “alimentar” conflitos do que pessoas.
Para o Pontífice, essa realidade revela não apenas dificuldades operacionais, mas um desequilíbrio profundo nas prioridades políticas e morais. A fome, explicou, não atinge apenas quem sente a ausência do pão à mesa. Ela compromete a coesão social, favorece conflitos, provoca migrações forçadas e alimenta ciclos de fragilidade que acabam afetando toda a comunidade internacional.
Nesse sentido, Leão XIV defendeu a retomada do multilateralismo. Nenhum país, afirmou, é capaz de enfrentar sozinho desafios globais como a fome, as guerras, a crise climática e a instabilidade econômica. A resposta, segundo o Papa, precisa nascer de uma aliança renovada entre as nações, inspirada pela fraternidade e pela preocupação concreta com os mais vulneráveis.
O apelo aos governos foi direto: aumentar os recursos destinados ao combate à fome, enfrentar suas causas profundas e remover os obstáculos que impedem a ajuda de chegar a quem mais precisa. O Papa também pediu que a burocracia seja simplificada, para que a transparência e a responsabilidade estejam a serviço das pessoas, e não se tornem barreiras para a solidariedade.
Leão XIV ressaltou ainda que, em muitos lugares onde os Estados vacilam ou onde o acesso humanitário é limitado, a Igreja Católica consegue chegar a populações vulneráveis por meio de suas comunidades, paróquias, missionários, organizações sociais e redes de caridade. Por isso, a presença da Igreja em regiões de difícil acesso continua sendo uma contribuição concreta para a defesa da vida.
Outro ponto central da mensagem foi a defesa dos direitos fundamentais. O Papa afirmou que água, alimento e acesso à saúde não podem ser subordinados a interesses de mercado ou disputas geopolíticas. Para ele, o acesso a uma alimentação adequada é um direito humano fundamental, enraizado na dignidade de cada pessoa.
Ao final do discurso, Leão XIV recordou que o que está em jogo não é apenas a eficácia de uma agência humanitária, mas a credibilidade da própria cooperação internacional. O mundo, afirmou, ainda pode escolher um novo caminho: simplificar processos, priorizar o essencial e garantir que nenhuma pessoa seja esquecida.
A mensagem deixada pelo Papa no Programa Mundial de Alimentos foi, acima de tudo, um chamado à consciência. Em um tempo em que guerras recebem investimentos bilionários e milhões de pessoas ainda sofrem com a fome, Leão XIV recordou que a medida da política não está na força das armas, mas na capacidade de proteger a dignidade humana. E essa dignidade, afirmou, permanece intacta em cada pessoa, independentemente de sua condição, origem ou posição social.