O celular que cabe na palma da mão tornou-se uma das grandes praças públicas do nosso tempo. É nele que muita gente se informa, se emociona, se distrai, se revolta, se aproxima da fé ou se afasta dela. É também nele que jovens, famílias, comunidades e lideranças religiosas disputam atenção em meio a um fluxo quase infinito de vozes, imagens, opiniões e algoritmos. Para a Igreja, este cenário não é apenas um desafio técnico. É uma verdadeira fronteira missionária.
Foi sobre essa presença cristã no ambiente digital que Dom Amilton Manuel da Silva, bispo da Diocese de Guarapuava, no Paraná, falou à Rádio Amar e Servir. Membro da Comissão Episcopal para Comunicação Social da CNBB, o bispo trouxe uma reflexão que ultrapassa a simples ideia de “usar melhor as redes sociais”. Sua fala aponta para algo mais profundo: a necessidade de uma Igreja capaz de discernir os sinais deste tempo e reconhecer que a evangelização também passa pelas telas, pelos aplicativos, pelos vídeos curtos, pelas transmissões, pelas mensagens e pelas novas linguagens da cultura digital.
“O mundo digital hoje é uma necessidade. Nós estamos conectados, nós estamos interligados. Não podemos fugir dessa realidade, não podemos demonizar, mas também não podemos aderir a tudo.”
A frase resume bem o equilíbrio proposto por Dom Amilton. O ambiente digital não deve ser visto como inimigo da fé, mas também não pode ser abraçado sem critério. Há nele beleza, encontro, criatividade, anúncio e comunhão. Mas há também ruído, vaidade, divisão, violência simbólica, desinformação e superficialidade. Por isso, a resposta cristã não pode ser nem o medo nem a ingenuidade. Precisa ser discernimento.
Esse olhar dialoga profundamente com a espiritualidade inaciana, tão marcada pela atenção aos movimentos interiores e pela busca de Deus em todas as coisas. Evangelizar no digital não é apenas publicar frases religiosas ou acompanhar tendências. É perguntar, com seriedade: o que este conteúdo gera nas pessoas? Aproxima ou afasta? Constrói comunhão ou alimenta divisão? Ajuda alguém a encontrar sentido, consolo e esperança? Ou apenas aumenta o barulho?
Dom Amilton reconhece que a Igreja no Brasil está avançando aos poucos nessa consciência. Segundo ele, a própria CNBB tem dado sinais concretos de uma comunicação mais estruturada, capaz de tornar mais visível aquilo que acontece na vida da Igreja. A comunicação, nesse sentido, deixa de ser apenas uma ferramenta de divulgação e passa a ser parte da missão.
“Nós estamos avançando aos poucos, mas a consciência está sendo tomada.”
Durante a entrevista, o bispo recordou que a CNBB ganhou maior visibilidade por contar com uma equipe de comunicação diretamente ligada à presidência e às comissões. Essa dinâmica ajuda a tornar mais ágil o fluxo de informações e aproxima a vida interna da Conferência do povo de Deus. Aquilo que acontece nas assembleias, nos debates, nas decisões e nos caminhos pastorais deixa de ficar restrito aos bastidores e chega mais rapidamente às comunidades, dioceses, agentes de pastoral e comunicadores.
“Tudo aquilo que acontece dentro da CNBB rapidamente já se toma conhecimento aqui fora.”
Essa agilidade também apareceu, segundo Dom Amilton, na própria organização da Assembleia da CNBB, com o uso de sistemas digitais para votações. Ele citou como exemplo os cliques eletrônicos que permitem conhecer os resultados em poucos segundos. Pode parecer apenas um detalhe tecnológico, mas revela uma mudança de mentalidade. A Igreja, mesmo com sua longa tradição, está aprendendo a dialogar com ferramentas que ajudam a tornar seus processos mais ágeis, participativos e conectados com a realidade atual.
Mas o ponto mais forte da entrevista aparece quando Dom Amilton fala dos chamados “missionários digitais”. A expressão, que ganhou força a partir do Dicastério para a Comunicação do Vaticano e do impulso do Papa Francisco, especialmente no contexto da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, ajuda a Igreja a compreender que o digital não é apenas um espaço de entretenimento ou informação. É também um território de missão.
“É um local de risco? Também. Mas é o lugar do cristão estar, não como curioso, mas como evangelizador.”
A afirmação é especialmente importante para os jovens. Eles estão entre os maiores habitantes dessa cultura digital. Vivem conectados, produzem linguagem, criam tendências, formam opinião, consomem conteúdo e também evangelizam, muitas vezes sem perceber. Para Dom Amilton, a presença do cristão nesse ambiente precisa deixar de ser improvisada. O católico não está nas redes apenas para observar, reagir ou repetir conteúdos. Ele é chamado a testemunhar.
E testemunhar, no digital, exige mais do que domínio de câmera, edição, legenda ou algoritmo. Exige coerência. Exige interioridade. Exige uma comunicação que nasce da oração e desemboca no serviço. É aqui que o olhar inaciano ajuda a iluminar a missão: antes de postar, discernir; antes de reagir, respirar; antes de dividir, buscar a comunhão; antes de querer aparecer, perguntar se aquilo realmente ajuda Cristo a ser mais conhecido, amado e seguido.
Dom Amilton também alertou para um risco muito atual: há cristãos que, em vez de evangelizar, acabam espalhando conteúdos ruins, alimentando divisões internas na Igreja e tensões no contexto social. Em tempos de polarização, inclusive em ano eleitoral, a presença cristã nas redes precisa ser ainda mais cuidadosa. A fé não pode ser usada como combustível para agressividade, disputa ou desinformação. Pelo contrário, deve ser fonte de encontro.
“Vamos convergir, vamos espalhar mais esperança, otimismo, alegria.”
A palavra “convergir” é decisiva. Em uma cultura marcada por bolhas e cancelamentos, a Igreja é chamada a ser ponte. A comunicação católica não pode apenas repetir a lógica das redes, que muitas vezes premia o conflito, o exagero e a exposição. Ela precisa oferecer outro ritmo, outro tom e outra direção. Precisa comunicar com verdade, mas também com ternura. Com firmeza, mas também com caridade. Com criatividade, mas também com responsabilidade.
Essa é uma provocação direta para pastorais, paróquias, dioceses, rádios, comunicadores, influenciadores católicos e jovens que desejam servir à evangelização. Não basta estar presente no Instagram, no YouTube, no TikTok ou no WhatsApp. É preciso perguntar que tipo de presença estamos construindo. Uma presença que escuta? Que acompanha? Que forma? Que consola? Que anuncia Jesus? Ou uma presença que apenas replica frases prontas e disputa visibilidade?
Na entrevista, Dom Amilton também situa essa reflexão dentro de um momento importante da Igreja no Brasil. Ele recorda que as assembleias da CNBB são espaços de comunhão e colaboração com os regionais e dioceses. As decisões e reflexões ali amadurecidas ajudam a fortalecer a unidade da ação evangelizadora, respeitando a realidade própria de cada Igreja local.
Um dos destaques mencionados pelo bispo são as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, que oferecem caminhos comuns para a missão da Igreja no país. Ele também citou a atualização do documento sobre juventude, tema essencial para uma Igreja que deseja dialogar com as novas gerações sem perder a profundidade do Evangelho.
Dom Amilton reconhece que muitos jovens estão afastados, mas também lembra que muitos continuam buscando a Igreja. Eles aparecem nos grupos juvenis, nos sacramentos para adultos, nos processos catecumenais, na catequese de adultos, nos acampamentos e em tantas experiências comunitárias que seguem gerando vida.
“Muita coisa boa está vindo por aí.”
Essa esperança não é ingênua. Ela nasce da percepção de que a juventude continua buscando sentido. Talvez nem sempre pelas portas tradicionais. Talvez nem sempre com as palavras que a Igreja espera ouvir. Mas há sede. Há perguntas. Há feridas. Há desejo de pertença. Há busca por Deus, mesmo quando essa busca aparece escondida atrás de uma tela iluminada de madrugada.
Por isso, o digital não pode ser tratado como um território distante da pastoral juvenil, da catequese, da liturgia, da comunicação e da ação missionária. Ele atravessa tudo. Está na forma como os jovens se relacionam, aprendem, sofrem, se comparam, rezam, se informam e se expressam. Ignorar essa realidade seria deixar de escutar uma parte importante do mundo contemporâneo.
Ao falar da inteligência artificial, Dom Amilton também abre uma porta para um debate ainda mais amplo. A Igreja está diante de uma tecnologia que ainda não conhece plenamente, mas que já está transformando a comunicação, o trabalho, a educação e a vida cotidiana. Mais uma vez, a resposta não pode ser o medo automático nem a adesão sem discernimento. A pergunta cristã permanece: como colocar essas ferramentas a serviço da vida, da verdade, da dignidade humana e do anúncio do Evangelho?
“Essa novidade da tecnologia, que eu não posso ignorar, é um espaço imenso, que ainda não conhecemos o suficiente. Olha a inteligência artificial.”
A fala de Dom Amilton provoca comunicadores católicos a não ficarem parados. A missão não espera que todos os cenários estejam totalmente compreendidos. A Igreja sempre evangelizou em meio às mudanças da história. Agora, a cultura digital exige novas linguagens, novas presenças e novos missionários. Mas o centro permanece o mesmo: Jesus Cristo.
“Tudo que nós pudermos aproveitar para evangelizar, para tornar Jesus Cristo servido, conhecido e amado, e o Evangelho testemunhado, não vamos ficar de braços cruzados.”
A expressão “não vamos ficar de braços cruzados” poderia ser lida como um chamado direto à juventude católica. O digital precisa de jovens que não apenas consumam conteúdo, mas que sejam presença de Evangelho. Jovens que saibam usar a criatividade para anunciar a esperança. Jovens que transformem seus perfis em espaços de encontro. Jovens que não tenham medo de falar de fé, mas que saibam fazê-lo com inteligência, beleza, escuta e amor.
No fim, Dom Amilton deixa uma mensagem simples, concreta e profundamente missionária. O celular que tantas vezes distrai também pode evangelizar. O computador que tantas vezes isola também pode aproximar. A rede que tantas vezes divide também pode ser espaço de comunhão. Tudo depende do coração, do discernimento e da intenção de quem comunica.
“Aproveite bem o celular que você tem nas mãos, o computador que você tem aí diante dos olhos. Vamos evangelizar, na verdade, com alegria e com muito amor.”
A entrevista de Dom Amilton à Rádio Amar e Servir recorda que a comunicação católica vive um momento decisivo. Não se trata apenas de ocupar espaço. Trata-se de habitar o mundo digital com alma. Com olhar de fé. Com inteligência pastoral. Com juventude. Com criatividade. Com espírito missionário. E, acima de tudo, com o desejo de que Cristo seja servido, conhecido e amado também nas novas praças digitais do nosso tempo.
Esta é uma matéria especial da Rádio Amar e Servir, produzida por Murilo Galhardo a partir de entrevista com Dom Hamilton Manuel da Silva, bispo de Guarapuava e membro da Comissão Episcopal para Comunicação Social da CNBB.